O sistema financeiro brasileiro vive um momento de transição estrutural, marcado pela consolidação do Open Finance como uma das maiores infraestruturas de dados do mundo. Segundo dados do Banco Central, o ecossistema atingiu a marca de 160 milhões de consentimentos ativos no primeiro trimestre de 2026. Esse volume massivo de informações, contudo, contrasta com um cenário de endividamento elevado: a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC/CNC) de abril de 2026 aponta que 80,9% das famílias brasileiras possuem dívidas, com quase 30% da renda mensal comprometida com pagamentos. A leitura aqui é que a maturidade técnica da infraestrutura digital ainda encontra barreiras na tradução de dados em capacidade real de pagamento.

A tecnologia financeira deixou de ser um diferencial competitivo para se tornar a base sobre a qual o acesso ao crédito é reconstruído. O uso de Inteligência Artificial para processar o comportamento financeiro em tempo real permite que instituições superem a rigidez dos modelos tradicionais de score. O movimento sugere que o setor caminha para uma análise baseada em fluxos de caixa dinâmicos, em vez de depender exclusivamente de históricos estáticos que frequentemente penalizam autônomos e trabalhadores informais.

A maturidade do Open Finance como infraestrutura

O Open Finance brasileiro não é apenas um projeto de compartilhamento de dados, mas um motor de inclusão financeira que redefine o poder de negociação do tomador de crédito. A Resolução BCB nº 295/2023 impulsionou o ecossistema, que registrou um crescimento de 146% no número de empresas conectadas em apenas doze meses, chegando a 589 mil entidades. Esse salto operacional demonstra que a infraestrutura está pronta para suportar transações de alta complexidade.

Contudo, a barreira cultural permanece significativa. Embora o conhecimento sobre o sistema seja alto, com 76,8% dos brasileiros cientes do conceito, a taxa de adesão efetiva, medida em 37,1% pela Lina Open X, indica que o desafio agora é de confiança e usabilidade. A premissa de que o compartilhamento de dados pode elevar a taxa de aprovação de crédito em até 30% é o principal argumento de venda para que o usuário final ceda seus dados em busca de melhores condições.

IA como motor de decisão autônoma

A aplicação de Inteligência Artificial na análise de crédito deixou o estágio de experimentação para se consolidar como a espinha dorsal das fintechs modernas. Em 2026, modelos de IA processam padrões de gastos e movimentações bancárias para identificar a viabilidade financeira de perfis que o sistema tradicional, por falta de comprovantes formais, historicamente rejeita. Esse mecanismo permite que empresas como a SuperSim, por exemplo, operem com modelos de análise proprietários que consideram o contexto real do solicitante em vez de apenas o histórico de inadimplência.

O impacto dessa automação é visível na agilidade do desembolso e na inclusão de PMEs. Dados da Serasa Experian apontam que a tecnologia permite avaliar a saúde financeira de negócios com maior precisão, mitigando o gargalo de financiamento que afeta quase metade das pequenas empresas no Brasil. A integração via APIs e o uso de assistentes conversacionais via WhatsApp, que atingem a capilaridade da população, transformam a gestão financeira em um processo intuitivo e acessível.

Tensões entre inclusão e endividamento

As implicações para os stakeholders são complexas. Reguladores enfrentam o desafio de manter a segurança do ecossistema enquanto incentivam a inovação, garantindo que o custo efetivo total (CET) seja transparente para o consumidor. Para as instituições financeiras, a competição por dados torna-se o novo campo de batalha, onde a capacidade de processamento de IA define quem consegue oferecer crédito de forma rentável e sustentável.

Para o consumidor, a tecnologia oferece ferramentas de organização, como a regra 50/30/20, que podem mitigar os riscos de superendividamento. A conexão entre aplicativos de finanças e o Open Finance elimina o erro humano na categorização de gastos, fornecendo uma visão clara da capacidade de pagamento. A preocupação, entretanto, reside na educação financeira, que deve acompanhar a facilidade de acesso ao crédito para evitar que a tecnologia apenas acelere o ciclo de endividamento de perfis vulneráveis.

O futuro da análise de risco

O que permanece incerto é a resiliência desses novos modelos de IA em cenários de estresse macroeconômico severo. A capacidade dos algoritmos de prever inadimplência em contextos de alta volatilidade da renda média brasileira será o verdadeiro teste de fogo para as fintechs que apostam na análise comportamental.

Observar a evolução das parcerias entre fintechs e instituições tradicionais, como o movimento de correspondentes bancários, será fundamental para entender como o sistema financeiro brasileiro se equilibrará entre a inovação digital e a prudência necessária. A tecnologia é apenas o meio; a sustentabilidade do crédito no país dependerá da capacidade do sistema em transformar dados em decisões financeiras equilibradas para todos os perfis.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital