E se a OpenAI e a Anthropic, joias da coroa da inteligência artificial generativa, falhassem em sua busca por lucros estratosféricos? A resposta, para alguns, não seria o seu fim, mas sua transformação em laboratórios nacionais sob controle público. A tese, provocadora e radical para a cultura do Vale do Silício, foi defendida em um ensaio pelo especialista em segurança Bruce Schneier e pelo pesquisador Nathan E. Sanders, publicado originalmente no The Guardian.

A proposta parte de uma contradição fundamental. Tanto a OpenAI quanto a Anthropic nasceram de um cisma, fundadas por desenvolvedores que temiam o desenvolvimento irrestrito da IA por gigantes como Google e Meta. A promessa era criar a tecnologia para o bem da humanidade. No entanto, ambas foram capturadas pelos mesmos incentivos de mercado que criticavam, tornando-se colossos corporativos focados em valor para o acionista, não no interesse público. A tese do artigo é que, se esse modelo de negócio se provar insustentável, talvez seja hora de devolvê-las à sua missão original, mas sob uma nova estrutura.

O paradoxo do valor

A euforia em torno de valuations trilionários para as empresas de IA pode estar enfrentando um choque de realidade. A economia por trás dos modelos de fronteira, como os que alimentam o ChatGPT e o Claude, é complexa e talvez insustentável a longo prazo. Os custos para treinar um novo modelo são astronômicos, e sua depreciação é quase imediata — em meses, um novo competidor o torna obsoleto, estreitando drasticamente a janela para extrair lucro. Ao mesmo tempo, o mercado se move para a comoditização: os melhores modelos se comportam de forma cada vez mais similar, pressionando os preços para baixo.

O maior desafio, contudo, pode vir de fora. A ascensão de modelos de código aberto, muitos deles com capacidade apenas alguns meses atrás dos líderes de mercado, oferece de graça o que OpenAI e Anthropic vendem. Muitos desses sistemas podem rodar em servidores privados ou até mesmo em laptops, questionando a necessidade dos investimentos bilionários em data centers. O paradoxo é que, embora possam não ser financeiramente viáveis como empresas de capital aberto, essas organizações são imensamente valiosas. Elas concentram talentos únicos e seus produtos têm uma base de usuários massiva. O problema, argumenta o ensaio, não está nas pessoas ou no produto, mas no sistema: o modelo de empresa privada com fins lucrativos pode simplesmente não ser o ideal para desenvolver IA.

Um modelo público para a IA

A alternativa proposta é a nacionalização, caso o mercado financeiro de fato conclua que essas empresas não oferecem retorno sobre o investimento. A ideia seria reestruturá-las como agências públicas, separando a inovação de produto da operação de computação. A função de inovação seria gerida como um laboratório nacional, com supervisão do Congresso americano, similar a instituições que produziram avanços em exploração espacial e telecomunicações. Já a operação dos data centers poderia ser tratada como uma utilidade pública, como redes de energia ou água, com regulação estrita e foco no serviço.

Os benefícios, segundo os autores, seriam claros. Com supervisão democrática, os modelos de IA poderiam se tornar mais transparentes e alinhados a valores públicos, não a lucros corporativos. O foco mudaria da meta especulativa de uma "inteligência artificial geral" para o objetivo pragmático de maximizar a utilidade da tecnologia para a sociedade. Para os funcionários e fundadores, seria um retorno à missão original de desenvolver IA de forma segura e para o bem comum — um teste para a seriedade de seus propósitos declarados. Não haveria, contudo, pacotes de resgate para investidores ou a manutenção de salários exorbitantes, que seriam alinhados ao serviço público.

A linha do tempo para um possível colapso do modelo atual é incerta. A aposta do Vale do Silício parece ser levar essas empresas a público e enriquecer investidores antes que a bolha estoure. Mas se ela estourar, a provocação que fica é que o governo deveria estar pronto para intervir. Independentemente do que os mercados pensem, para a sociedade, essas tecnologias podem ser valiosas demais para simplesmente desaparecerem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Schneier on Security