A lógica dos sistemas de gestão empresarial (ERP) está prestes a mudar radicalmente. Por décadas, a interação se baseou na entrada de dados por profissionais, seguida pela consulta de relatórios e análise de indicadores para a tomada de decisão. A Oracle NetSuite, no entanto, apresentou no SuiteWorld 2026 uma visão que inverte essa dinâmica: o ERP se tornará uma plataforma proativa, capaz de identificar falhas, sugerir correções e executar ações por meio de agentes de inteligência artificial.

O ERP como Agente Ativo

A proposta da Oracle NetSuite, detalhada por Evan Goldberg, fundador e vice-presidente executivo da companhia, é que o ERP evolua de uma ferramenta passiva para um parceiro inteligente. O NetSuite Next, a nova geração da plataforma, integrará agentes especializados com dados financeiros e operacionais, utilizando interfaces em linguagem natural. Um exemplo prático dessa transformação é o fechamento contábil, um processo tradicionalmente complexo e demorado, que exigia a colaboração de múltiplas equipes. Com os novos AI Workspaces, agentes de IA poderão monitorar continuamente essas atividades, detectar exceções e orquestrar aprovações, aproximando as empresas da possibilidade de realizar o fechamento financeiro no mesmo dia.

SuiteSkills e Interação em Linguagem Natural

Para viabilizar essa nova era de gestão, a NetSuite anunciou mais de 45 "SuiteSkills", competências de negócios pré-configuradas que unem o conhecimento da plataforma com a capacidade de raciocínio de modelos de IA. Essas habilidades abrangem finanças, estoque, vendas, projetos e atendimento ao cliente, permitindo que a IA investigue problemas e recomende ações com base nas informações corporativas. As demonstrações incluíram a priorização de cobranças, a identificação de riscos em projetos e sugestões de contas para conciliação financeira. As SuiteSkills podem ser acessadas via "Ask Oracle" ou integradas a modelos externos como ChatGPT e Claude, respeitando as permissões de cada organização. A interação em linguagem natural também ganha destaque com os AI Portlets, que transformam solicitações em gráficos e painéis, e os AI Workspaces, que organizam pessoas, agentes, dados e aprovações em torno de objetivos específicos. O futuro AI Workspace Builder promete expandir ainda mais a criação desses ambientes colaborativos.

Ampliação de Capacidades e Implantação Acelerada

A estratégia da NetSuite também foca em aprimorar a capacidade do ERP de lidar com dados externos. O "Ask Oracle" receberá novas funcionalidades, como previsões de indicadores e conexões com outras aplicações e fontes da internet, permitindo que a IA explore questões além dos dados internos do sistema. O NetSuite Data Intelligence, antiga denominação do NetSuite Analytics Warehouse, aprimora a análise conversacional de dados financeiros e operacionais. A companhia já registra mais de 13 mil clientes utilizando o NetSuite AI Connector Service. A inteligência artificial também promete otimizar a implantação de sistemas. O SuiteExpress visa reduzir o tempo necessário para colocar um ERP em funcionamento, utilizando agentes para organizar requisitos, configurar o sistema, migrar dados e realizar testes. A Worksmith, por exemplo, relatou ter iniciado suas operações em 60 dias, um avanço significativo em relação à expectativa inicial de seis meses. Essa abordagem, inicialmente focada em clientes do setor de software nos EUA e Canadá, utiliza o conhecimento específico de cada cliente e a experiência acumulada pela NetSuite em quase três décadas.

Especialização por Indústria e Perguntas em Aberto

A especialização por indústria foi outro ponto chave. Novos "SuiteAgents" foram desenvolvidos para atender processos específicos de setores como software, produtos, serviços, saúde, construção e organizações sem fins lucrativos, com exemplos como identificação de risco de cancelamento de assinaturas e otimização de estoques. A Oracle NetSuite demonstra um movimento claro em direção a um ERP mais autônomo e inteligente, onde a IA não é apenas uma ferramenta complementar, mas o núcleo da experiência de gestão. A questão que fica é como essa transição afetará a força de trabalho e quais novas habilidades serão necessárias para navegar nesse ambiente transformado. A promessa de agilidade e eficiência é clara, mas a adaptação a essa nova lógica de interação exigirá aprendizado e redefinição de processos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside