O Massachusetts Institute of Technology (MIT) anunciou a efetivação de cinco novos professores em sua Escola de Humanidades, Artes e Ciências Sociais (SHASS), um processo conhecido no meio acadêmico como a concessão de tenure — na prática, um cargo vitalício. A lista, divulgada pelo próprio MIT, inclui acadêmicos das áreas de Ciência Política, Economia, Estudos de Mídia e Teatro.
À primeira vista, uma movimentação interna de uma universidade. Na leitura mais atenta, um forte sinalizador de para onde uma das principais instituições de tecnologia do mundo acredita que o estudo da sociedade está caminhando. A tese que emerge das nomeações é clara: as humanidades e ciências sociais mais relevantes para o futuro serão aquelas que dialogam diretamente com dados, plataformas digitais e as consequências da tecnologia.
A Economia e a Política como Software
A tendência é mais visível nos economistas. Tobias Salz, um dos novos professores efetivos, tem como campo de estudo a organização industrial, mas aplicada a plataformas digitais. Sua pesquisa examina o poder de mercado em mecanismos de busca, a precificação personalizada em plataformas e a colaboração entre especialistas humanos e inteligência artificial no diagnóstico médico. Ao seu lado, Christian Wolf foca em como políticas monetárias e fiscais podem estabilizar a economia, mas com uma abordagem que prioriza o aprendizado direto de dados, em detrimento de modelos estruturais tradicionais.
Essa abordagem se estende à ciência política. Volha Charnysh estuda o papel da identidade na construção do Estado e no desenvolvimento econômico, com foco nos efeitos duradouros do deslocamento em massa de populações. Seu trabalho, embora histórico, ecoa uma preocupação contemporânea sobre como cultura e identidade se tornam variáveis em modelos de análise — um tema central na era da dataficação.
Humanidades para a Era Digital
Se nas ciências sociais o foco é a aplicação de um ferramental digital, nas humanidades a investigação se volta para a própria experiência de viver num mundo mediado pela tecnologia. Tung-Hui Hu, poeta e acadêmico de estudos de mídia, é o exemplo mais explícito. Autor de livros como “Digital Lethargy” (Lethargia Digital) e “A Prehistory of the Cloud” (Uma Pré-história da Nuvem), Hu investiga como conceitos abstratos como raça e linguagem se tornaram “objetos mensuráveis e governáveis na forma de datasets”.
Completa a lista Grisha Coleman, da área de Música e Artes Cênicas, cuja pesquisa explora as tensões entre sistemas fisiológicos, tecnológicos e ecológicos. A escolha desses perfis pelo MIT não parece acidental. A instituição não está apenas formando engenheiros para construir o futuro, mas também os pensadores que irão criticá-lo, entendê-lo e contextualizá-lo.
As nomeações no SHASS são menos sobre o passado das disciplinas e mais sobre seu futuro. Ao efetivar esses acadêmicos, o MIT faz uma aposta curricular e intelectual, definindo o que significa estudar a sociedade e a cultura em uma era dominada por código e dados. É um sinal para o mercado e outras instituições sobre onde as perguntas mais relevantes — e os talentos para respondê-las — serão encontrados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT News





