A revista Outside lançou sua edição de verão de 2026 com um foco editorial voltado para a democratização do acesso às experiências ao ar livre. Sob a direção de Kevin Sintumuang, a publicação utiliza a figura do chef José Andrés como fio condutor para discutir a exclusão social e a importância da coletividade. O editorial sugere que o verdadeiro propósito das atividades ao ar livre não reside apenas na exploração individual, mas na capacidade de integrar comunidades que, por décadas, foram mantidas à margem de parques, praias e reservas naturais.

O legado da exclusão nos espaços públicos

A publicação destaca casos emblemáticos de segregação, como a história do Ebony Beach Club, um resort fundado por empreendedores negros durante o período das leis Jim Crow nos Estados Unidos. A análise editorial aponta que a exclusão não foi acidental, mas estrutural, impedindo que comunidades inteiras tivessem acesso ao lazer em áreas costeiras e florestais. Hoje, novos grupos de surfistas e organizadores buscam resgatar esse legado, transformando espaços que antes eram zonas de exclusão em pontos de encontro e resistência cultural.

A cogestão como ferramenta de reparação

Um dos pontos centrais da edição é a discussão sobre a gestão de terras federais. O caso do Ocmulgee Mounds, na Geórgia, serve como um modelo para o que pode vir a ser o 64º parque nacional do país. A proposta de cogestão entre o governo e a nação Muscogee, expulsa da região há dois séculos, representa uma mudança de paradigma. A leitura aqui é que a conservação ambiental não pode mais ser dissociada da justiça histórica e do reconhecimento da soberania dos povos originários sobre seus territórios ancestrais.

Desafios para a soberania alimentar e histórica

A revista também explora como a resiliência de sistemas locais pode impactar o acesso ao ar livre. No Havaí, agricultores e gestores de tanques de peixes tradicionais tentam reconstruir um ecossistema alimentar em uma ilha que importa cerca de 90% de seu consumo. A análise sugere que a sustentabilidade dessas comunidades é essencial para manter a integridade dos espaços naturais. Paralelamente, o resgate da história do explorador Yazoo, Moncacht-Apé, serve como uma crítica à historiografia oficial que ignorou figuras fundamentais na exploração do continente antes da expedição Lewis e Clark.

O futuro da ocupação do espaço

O debate proposto pela Outside levanta questões sobre como o setor de turismo e lazer deve se posicionar diante das desigualdades estruturais. A incerteza reside na capacidade de instituições públicas e privadas em implementar mudanças que vão além do discurso de inclusão. O próximo passo para o setor será observar se tais iniciativas de cogestão e reparação conseguirão ganhar escala nacional ou se permanecerão como casos isolados de sucesso local.

O convite da revista é para que o leitor observe o seu próprio entorno e identifique quem ainda permanece fora do círculo, propondo que a responsabilidade pela inclusão cabe àqueles que já ocupam esses espaços. A reflexão permanece aberta sobre como equilibrar o uso recreativo do ar livre com a necessidade urgente de justiça social e preservação histórica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Outside Online