A Pague Menos (PGMN3) confirmou que recusou ofertas para adquirir operações de farmácias montadas dentro de redes de supermercados. A decisão reflete o ceticismo da companhia em relação ao modelo de negócio sob a nova Lei 15.357, sancionada em março, que regula a presença desses estabelecimentos no varejo alimentar.
Segundo o CFO da Pague Menos, Luiz Novais, o faturamento médio por loja nesses formatos é insuficiente para compensar o investimento necessário. A empresa, que prioriza a redução de dívidas após um processo de turnaround, avalia que o desenho regulatório atual impõe barreiras que anulam a conveniência esperada pelos supermercados.
O impacto da regulamentação no setor
O setor supermercadista buscou por mais de uma década a autorização para comercializar medicamentos diretamente nas gôndolas. Contudo, o texto final da Lei 15.357 impôs exigências rigorosas: a necessidade de um ambiente fisicamente isolado, caixa próprio e a presença obrigatória de um farmacêutico durante todo o horário de funcionamento.
Para a Pague Menos, essa exigência de segregação cria atrito na jornada do consumidor, que precisa transitar por uma loja dentro de outra para adquirir itens básicos como analgésicos. A avaliação interna é de que a lei, ao invés de abrir o mercado, acabou por consolidar barreiras de entrada que protegem o modelo tradicional das grandes redes de drogarias.
Dilema entre margem e complexidade
A consultoria Peers Consulting + Technology aponta que os supermercados enfrentam um dilema estratégico entre a verticalização e o licenciamento. Enquanto redes de grande porte podem optar por operar as farmácias internamente para capturar dados de CRM e fidelizar clientes, o custo fixo é elevado, com gastos significativos em profissionais e infraestrutura.
O licenciamento, por outro lado, surge como uma alternativa para varejistas médios que buscam agilidade sem absorver o risco regulatório integral. A margem bruta em medicamentos isentos de prescrição (MIPs) estima-se entre 30% e 35%, mas os custos operacionais com pessoal e adequação física exigem um volume de vendas que nem todos os pontos de venda conseguem sustentar.
Implicações para o ecossistema farmacêutico
A entrada de supermercados no setor farmacêutico também movimenta o ecossistema de meios de pagamento e fidelidade. A DM, gestora de cartões private label, avalia que a integração permite o parcelamento de medicamentos junto às compras de mercado, aumentando o tempo de permanência do cliente na loja.
Entretanto, a tensão permanece sobre a interpretação das normas de comércio eletrônico. A Abrafarma, que representa as 29 maiores redes do país, mantém vigilância sobre possíveis irregularidades em marketplaces, reforçando que a lei autoriza logística, mas não intermediação de vendas de remédios.
Perspectivas e incertezas
O mercado farmacêutico brasileiro segue em expansão, com projeções de crescimento impulsionadas pelo canal digital e pela demanda por medicamentos de classe GLP-1. A capacidade das redes de capturar esse movimento será testada pela eficiência operacional e pela adaptação às constantes mudanças na RDC 44/2009 da Anvisa.
O movimento da Pague Menos sinaliza que a consolidação do setor pode seguir caminhos distintos, onde a escala e a especialização pesam mais do que a simples conveniência física dentro de grandes varejistas alimentares. O desfecho dessa estratégia dependerá da capacidade dos supermercados em justificar o custo operacional frente a um consumidor cada vez mais atento a preços.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea





