A Pague Menos, uma das maiores redes de varejo farmacêutico do Brasil, sinalizou um freio nas expectativas do setor supermercadista sobre a integração de drogarias. Segundo reportagem da Bloomberg Línea, a companhia recusou propostas para adquirir ou operar as unidades de farmácia instaladas dentro de grandes redes de supermercados, frustrando o otimismo que surgiu após a sanção da Lei 15.357, em março.
A legislação, que encerrou um longo embate de mais de uma década no Congresso, não entregou a flexibilidade que os supermercados buscavam. Em vez de permitir a venda de medicamentos em gôndolas como produtos comuns, a norma impôs barreiras operacionais rígidas que alteram radicalmente a viabilidade econômica do projeto para grandes players do setor farmacêutico.
O abismo entre expectativa e realidade
O setor supermercadista brasileiro alimentou, por anos, a tese de que a venda de medicamentos seria um diferencial competitivo capaz de elevar o tráfego e o ticket médio de suas lojas. A expectativa era de um modelo de negócio ágil, onde o remédio ocuparia um espaço de conveniência dentro do ecossistema de compras diárias. Contudo, a redação final da lei frustrou esse desenho ao exigir ambientes fisicamente isolados, caixas exclusivos e a presença obrigatória de um farmacêutico durante todo o horário de funcionamento.
Para as grandes redes de farmácia, essa configuração transforma o que deveria ser uma operação de baixo custo em uma unidade que replica as complexidades de uma loja de rua, mas sem a mesma escala ou atratividade. A leitura de mercado é que a estrutura exigida pela nova regulação inviabiliza a eficiência operacional necessária para que a farmácia dentro do supermercado compense o investimento inicial e os custos fixos de manutenção.
A lógica da resistência operacional
O CFO da Pague Menos, Luiz Novais, foi direto ao ponto: o faturamento médio por loja nesses espaços é insuficiente para justificar o investimento. A resistência não é apenas uma questão de estratégia, mas de cálculo financeiro puro. Para uma rede de drogaria, cada ponto de venda precisa atingir um limiar de volume e margem que, no formato imposto pela lei, torna-se inalcançável dentro da estrutura atual dos supermercados.
Além disso, o modelo de "farmácia dentro de supermercado" enfrenta um problema estrutural de incentivos. Enquanto o supermercado quer converter clientes de alimentos em compradores de remédios, a drogaria opera com uma lógica de gestão de estoque, regulação sanitária e atendimento técnico que não se harmoniza facilmente com a cultura de alta rotatividade e baixo custo operacional do varejo alimentar. Sem a liberdade de colocar produtos na gôndola, o ganho de escala desaparece.
Tensões para o varejo e stakeholders
O impasse coloca em lados opostos o varejo alimentar e o setor de drogarias. Para os supermercados, a dificuldade de atrair parceiros qualificados para operar essas unidades cria um ativo imobilizado que não gera o retorno esperado. Reguladores, por sua vez, mantiveram a linha de cautela sanitária, priorizando a segurança do consumidor em detrimento da conveniência comercial pleiteada pelas redes.
Para o consumidor brasileiro, o impacto é direto: a promessa de uma experiência de compra integrada, comum em países onde a venda de fármacos é mais liberal, permanece distante. O mercado observa agora se as redes de supermercados tentarão operar essas farmácias de forma independente ou se o projeto será gradualmente abandonado em favor de outras estratégias de conveniência que não dependam da complexa regulação de medicamentos.
O futuro das operações integradas
O que permanece em aberto é se a legislação será revisitada para permitir algum grau de flexibilização ou se o mercado de farmácias consolidará sua posição de exclusividade no varejo especializado. A ausência de grandes players dispostos a assumir esses ativos sugere que, pelo menos no curto prazo, a integração física entre supermercados e drogarias no Brasil continuará sendo um nicho de difícil execução.
O setor deve monitorar se novos modelos de negócio, possivelmente focados em parcerias menores ou em tecnologias de telemedicina, conseguirão contornar as barreiras impostas pela legislação. Por ora, a cautela domina as decisões de investimento das grandes redes de farmácia.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Bloomberg Línea




