A transição energética global impõe um desafio crescente: a necessidade de vastas áreas para a instalação de parques solares e eólicos, que frequentemente competem com terras agrícolas. Na Suécia, essa tensão tem levado a debates e decisões judiciais que priorizam a produção de alimentos, como no caso do projeto de parque solar de Svedberga. Diante desse cenário, a agrivoltaica surge como uma solução promissora, buscando a coexistência entre a geração de energia e o cultivo de alimentos.

O Experimento Sueco: Brócolis Sob Luz Magenta

Um estudo conduzido pela Universidade de Mälardalen, na Suécia, investigou o potencial de painéis solares semitransparentes de cor magenta para o cultivo de brócolis. Os pesquisadores compararam o desenvolvimento da hortaliça sob diferentes níveis de transparência dos painéis (50% e 70%) e em uma parcela de controle a pleno sol. Os painéis, feitos de telururo de cádmio, foram projetados para modificar o espectro de luz, permitindo a passagem de comprimentos de onda essenciais para a fotossíntese (vermelho e azul), enquanto o restante era convertido em eletricidade. Embora o brócolis cultivado sob os painéis tenha levado 25 dias a mais para amadurecer e apresentado um peso ligeiramente menor, a diferença não foi considerada significativa. O estudo destacou que a eficiência no uso da radiação solar foi 4,5 vezes maior em comparação com o campo aberto, indicando que a planta aproveita melhor a luz disponível.

Agrivoltaica: Uma Nova Fronteira Energética e Agrícola

A agrivoltaica, ou agrovoltaica, busca resolver a dicotomia entre a produção de energia e a agricultura. A ideia é que a mesma área de terra possa gerar tanto eletricidade quanto alimentos de forma simultânea, aumentando a produtividade geral. Modelos sugerem que essa abordagem pode resultar em uma ratio de uso equivalente da terra superior a 1, otimizando a utilização dos recursos. A Suécia tem demonstrado interesse nesse campo, com a inauguração do parque agrivoltaico Svea Solar, que já integra a rotação de culturas como colza, prado e trigo sob painéis solares. Experimentos anteriores, como os realizados pela Universidade de Cambridge e Greenwich com albahaca e espinafre sob painéis laranjas, já haviam apontado para a viabilidade técnica e até para potenciais benefícios nutricionais, embora com rendimentos comerciais menores.

Desafios e Próximos Passos

Os resultados do experimento sueco são encorajadores, mas os pesquisadores alertam para a necessidade de cautela. Trata-se de um estudo inicial focado em um único cultivo e em uma única localidade. São necessários mais ensaios com uma variedade maior de culturas, em diferentes climas e com diversas configurações de painéis para validar a abordagem em larga escala. A questão econômica, incluindo custos de instalação, manutenção e retorno sobre o investimento, também precisa ser detalhadamente analisada. Além disso, o prolongamento do ciclo de maturação do brócolis levanta preocupações sobre o planejamento agrícola, a rotação de culturas e o risco de pragas ou geadas. A busca por painéis que maximizem a produção de energia sem comprometer significativamente o rendimento agrícola continua sendo o principal objetivo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka