O País Basco, uma região que abriga uma indústria eólica de classe mundial, enfrenta um paradoxo persistente: a dificuldade de instalar novas infraestruturas de energia renovável no próprio território. Após duas décadas sem inaugurar um novo parque eólico, o governo local, em parceria com a Iberdrola através da sociedade Aixeindar, lançou uma iniciativa inédita para contornar a oposição comunitária. O projeto Labraza, em Oion, tornou-se o laboratório de uma estratégia que transforma vizinhos críticos em investidores diretos, utilizando o modelo de crowdlending para financiar a construção.

Segundo reportagem do Xataka, o projeto oferece uma rentabilidade anual garantida de 7% para moradores que aportarem entre 1.000 e 100.000 euros. A resposta inicial foi imediata: em menos de 24 horas após a abertura da prerreserva em 18 de maio, 51 investidores locais já haviam coberto 60% da meta de três milhões de euros. A iniciativa, batizada de "Gure Haizea" (Nosso Vento), busca alterar a percepção pública sobre a infraestrutura energética, deslocando o papel do morador de espectador impactado para o de beneficiário financeiro.

O impasse da aceitação social

A resistência a parques eólicos em zonas rurais não é um fenômeno exclusivo da Espanha, mas no País Basco ela atingiu um ponto crítico que limita a transição energética regional. Com apenas 7,9% da eletricidade produzida a partir de fontes renováveis próprias, a região está longe da meta de 15% para 2030. A oposição local fundamenta-se em preocupações legítimas sobre o impacto paisagístico, ruído e a preservação de ecossistemas, mas também em um sentimento de injustiça distributiva.

A leitura aqui é que o modelo tradicional de desenvolvimento energético falhou ao não integrar a comunidade no valor gerado pelo projeto. Enquanto o impacto visual e sonoro é absorvido pelos municípios rurais, os lucros e a energia gerada costumam ser exportados para centros urbanos e sedes corporativas. Esse desequilíbrio estrutural tem travado centenas de iniciativas renováveis, forçando governos a buscar mecanismos que tornem a transição energética um ativo local, em vez de uma imposição externa.

Mecanismos de participação comunitária

O uso de plataformas de investimento, como a Fundeen, autorizada pela Comissão Nacional do Mercado de Valores, simplifica a entrada de pequenos poupadores no mercado de infraestrutura. Diferente de modelos de cooperativas de energia ou participação acionária, o crowdlending atua através de um contrato de dívida. O investidor torna-se um credor do projeto, recebendo juros fixos independentemente da oscilação na produção de energia ou do preço de venda no mercado atacadista.

Este mecanismo elimina o risco de mercado para o pequeno investidor, tornando a oferta atraente em um cenário de busca por retornos mais estáveis. Ao garantir 7% de rentabilidade, o projeto Labraza retira o argumento da exploração unilateral. Se o morador também aufere ganhos com o vento, a infraestrutura deixa de ser um corpo estranho na paisagem para se tornar um ativo financeiro que compõe a renda das famílias locais.

Tensões e paralelos globais

A estratégia basca ecoa debates em outros territórios que tentam resolver a desigualdade energética. Em regiões onde a infraestrutura renovável é vista como um dreno de recursos locais, a solução passa por garantir que o dinheiro circule dentro do município. Para o Brasil, que expande rapidamente seu parque eólico, especialmente no Nordeste, o modelo levanta questões sobre a viabilidade de integrar comunidades rurais em projetos de grande escala.

O desafio para os reguladores é equilibrar a necessidade de escala das grandes empresas com a exigência de justiça social. Se o modelo de Labraza for bem-sucedido, ele poderá servir de referência para que outros projetos de infraestrutura superem a barreira da "nimby" (not in my backyard) através da democratização do capital. A tensão entre o interesse público da transição energética e a autonomia local continuará sendo o principal gargalo para o setor.

O futuro da governança energética

A eficácia do modelo de crowdlending a longo prazo ainda precisa ser testada, especialmente após a conclusão do prazo de três anos de investimento. Resta saber se o retorno financeiro será suficiente para garantir o apoio contínuo caso ocorram problemas operacionais ou impactos imprevistos na região.

O sucesso da captação inicial indica um apetite claro por investimentos locais, mas a sustentabilidade política do projeto dependerá da percepção de que, além dos juros, o território também colhe benefícios tangíveis em termos de desenvolvimento regional e redução de custos energéticos. O desenrolar do projeto Labraza definirá se a financeirização comunitária é uma solução escalável ou apenas um paliativo pontual.

O movimento basco sugere que a transição energética não pode ser apenas tecnológica; ela exige uma reconfiguração dos incentivos econômicos que conectam o cidadão comum aos grandes projetos de infraestrutura, transformando a oposição em alinhamento de interesses.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka