Imagine uma prateleira onde uma jaqueta de couro Avirex, pesada e com emblemas góticos, divide espaço com um moletom que traz a Virgem Maria bordada em cores neon. Ao lado, uma parka técnica de GORE-TEX com zíperes vibrantes e, um pouco mais adiante, a personagem Betty Boop estampada numa camiseta. Este não é um bazar aleatório, mas um recorte preciso do lookbook de outono de 2026 da Palace Skateboards, a marca londrina que transformou a colagem cultural em seu principal produto.

Divulgada em veículos como o Hypebeast, a coleção é menos sobre uma tendência e mais sobre a ausência dela — ou melhor, a coexistência de todas ao mesmo tempo. A Palace aperfeiçoou a fórmula de falar com múltiplas subculturas simultaneamente. Há o aceno ao workwear, com uma paródia do logo da transportadora japonesa Yamato; a funcionalidade do GORE-TEX, que agrada tanto ao explorador urbano quanto ao entusiasta de tecnologia; e as colaborações, que funcionam como âncoras de nostalgia. A jaqueta Avirex evoca uma era específica do hip-hop, enquanto Betty Boop resgata um imaginário pop quase centenário, agora filtrado pela ironia do streetwear.

O ponto mais agudo dessa estratégia, no entanto, está na apropriação de símbolos. Peças com os dizeres "HIGHWAY TO HAVEN" ("Estrada para o Paraíso") e a já mencionada Virgem Maria não são sobre fé, mas sobre estética. Trata-se da lógica do feed de redes sociais aplicada ao guarda-roupa: tudo é conteúdo, tudo é imagem, desprovido de seu contexto original e remixado para gerar impacto e identidade. A iconografia sagrada é tratada com a mesma reverência — ou falta dela — que uma personagem de desenho animado.

No fim, a Palace não vende apenas roupas, mas curadoria de referências. Cada peça é um token de pertencimento a um nicho, permitindo que o consumidor monte seu próprio mosaico de identidade. A coleção não pergunta no que você acredita, mas sim qual fragmento de cultura você vai vestir hoje.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hypebeast