A mesa de trabalho de Colombine Jubert e Laëtitia Rouget não é um lugar de cálculos frios ou métricas de engajamento, mas um laboratório de símbolos poéticos onde o absurdo e a beleza coabitam. Conhecidas pela marca PANGEA, as duas designers construíram um universo visual que parece desafiar a gravidade do cenário cultural atual. Enquanto a ironia e o cinismo se tornaram a moeda de troca preferencial na comunicação contemporânea, elas insistem na capacidade de assemelhar o design ao jogo e ao otimismo. Não se trata de uma estratégia de marketing superficial, mas de uma postura deliberada diante da ansiedade coletiva que define o nosso tempo.
A construção de um universo próprio
A trajetória de Jubert e Rouget começou nas salas de aula da Central Saint Martins, em Londres, onde a amizade precedeu qualquer ambição comercial. Desde o início, a complementaridade foi o motor da PANGEA, unindo as expertises em moda, belas artes e ilustração em uma linguagem coesa. Elas não buscam apenas criar produtos, mas projetar mundos inteiros onde a natureza e o humano dialogam através de cores vibrantes e ícones como os delfins banana. Esse método de trabalho orgânico, que evita o planejamento excessivo, é para elas a própria definição de liberdade criativa.
Historicamente, o design costuma ser capturado por tendências que privilegiam a sobriedade ou a funcionalidade extrema. A PANGEA, contudo, opera na contramão ao validar a ingenuidade e o lúdico como forças legítimas. Ao colaborar com a centenária AGATHA Paris, a dupla não apenas adaptou seus códigos visuais para a joalheria, mas impôs uma narrativa de talismã aos acessórios. Cada peça, segundo elas, funciona como uma pequena escultura portátil, carregada de significados que transcendem o valor de mercado ou o status social.
A economia da atenção versus a voz interior
O mecanismo que sustenta a PANGEA baseia-se na premissa de que a alegria exige coragem. Em um mundo saturado de informações e ruído, a capacidade de silenciar o exterior para ouvir a própria voz interior torna-se um diferencial competitivo e existencial. Jubert e Rouget argumentam que a maioria das pessoas ignora os detalhes cotidianos — texturas, gestos e pequenas energias — em favor de uma velocidade insustentável. A sua prática criativa é, portanto, um convite ao desaceleramento e à reconexão com o que é essencialmente humano.
A escolha pela beleza como motor criativo é, para elas, um ato de rebeldia política. Elas reconhecem que a raiva e a indignação podem mover ativismos, mas optam por uma via alternativa: a elevação do espírito através do design. Essa postura não ignora as sombras do mundo, mas escolhe projetar uma luz diferente, criando o que definem como um parêntese, uma bolha de otimismo em meio ao caos. É uma forma de resistência que se materializa não em protestos, mas na persistência de criar objetos que celebrem a vida.
O legado da utopia cotidiana
A longo prazo, o objetivo das fundadoras da PANGEA é que seus objetos sirvam como pontes entre gerações. A ideia de que uma joia possa ser transmitida de uma avó para um neto, carregando consigo a memória de uma época que ainda acreditava na beleza, é o ápice da sua ambição. Esse desejo de perenidade contrasta com a obsolescência programada da indústria da moda e do design, reforçando a natureza atemporal de suas criações.
O futuro, para a dupla, não precisa ser sombrio. Elas defendem que a humanidade necessita de utopias para se projetar adiante, e que o design tem o papel de construir esses espaços de liberdade imaginária. Ao manterem a porta aberta para o absurdo e para o inesperado, elas garantem que a PANGEA continue a ser um refúgio contra o conformismo, provando que a alegria, quando cultivada com seriedade, é uma das forças mais transformadoras que existem.
O que resta após o entusiasmo
O que permanece em aberto, contudo, é a capacidade do mercado de sustentar essa abordagem sem diluir sua essência. À medida que a PANGEA escala suas colaborações, o desafio será manter o equilíbrio entre a liberdade criativa e as demandas de um sistema que raramente perdoa a ingenuidade. Resta observar se o otimismo, como estratégia de negócio, conseguirá resistir ao desgaste do tempo e à pressão por resultados imediatos.
Talvez a pergunta mais relevante não seja sobre o sucesso da marca, mas sobre o que fazemos com a nossa própria capacidade de nos maravilhar. Se o delfim banana é um símbolo de resistência, o que estamos dispostos a criar hoje que sobreviva aos próximos cinquenta anos? A resposta, ao que parece, reside naquilo que decidimos valorizar quando ninguém está olhando.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





