A farmácia, por natureza, é um ponto de contato direto com o consumidor, onde medicamentos, produtos de higiene e beleza são o foco principal. Contudo, a rede gaúcha Panvel enxerga uma complexidade operacional gigantesca por trás desse cenário. Para explorar e resolver essas dores, a empresa criou o Panvel Labs em 2020, uma iniciativa de inovação aberta que já colaborou com mais de 30 startups. O método parte da observação das operações diárias e do diálogo com as áreas de negócio, identificando desafios específicos que são então lançados ao mercado através de ecossistemas parceiros como o Instituto Caldeira, Tecnopuc e ACATE.
O processo de experimentação é rigoroso: startups e áreas internas definem métricas conjuntas para testes que duram de dois a três meses. O objetivo é gerar dados suficientes para decidir entre escalar a solução ou descartá-la. Anualmente, a Panvel realiza cerca de 10 provas de conceito, com uma taxa de sucesso de duas a três iniciativas que se tornam operações regulares. Em 2026, quatro projetos já alcançaram essa fase. Exemplos notáveis incluem a automação da escala de trabalho para mais de 12 mil colaboradores, que antes era manual, e a implementação de um espelho virtual com visão computacional no aplicativo, que aumentou em 60% a compra de maquiagem pela categoria digital. Uma experiência inovadora em andamento testa o uso de música gerada por inteligência artificial para ambientação das lojas, evitando custos com direitos autorais.
Inovação com Pés no Chão
A estratégia de inovação aberta da Panvel se diferencia por um pragmatismo que evita o "medo de ficar de fora" (FOMO) que levou muitas empresas a investirem em iniciativas sem alinhamento claro com o negócio. Fábio Machado, head de inovação da Panvel, enfatiza que a abordagem sempre foi "pés no chão", com orçamento restrito, criatividade e forte alinhamento entre os stakeholders. Uma startup só é incorporada após a área de negócio comprovar a necessidade e assumir a responsabilidade pela implementação. Esse critério se estende ao Corporate Venture Capital (CVC) da Panvel, criado em 2023. O fundo opera de maneira descentralizada, sem CNPJ apartado ou mandato de valor fixo, focando em investimentos que surgem de relações já estabelecidas.
CVC e Parcerias Estratégicas
O modelo de CVC da Panvel prioriza o investimento em startups com as quais já existe uma relação de parceria. Um exemplo é a Lincon, startup de prescrição eletrônica que é parceira da Panvel desde a pandemia e recebeu R$ 8,5 milhões em 2023, com um follow-on de R$ 1,5 milhão em 2025. Outra startup recebeu R$ 1,6 milhão e está em negociação para um novo aporte. Essa abordagem permite que a Panvel não apenas invista em tecnologias promissoras, mas também fortaleça parcerias estratégicas que agregam valor direto às suas operações e ao seu ecossistema.
Fronteiras da Saúde e IA
O canal digital da Panvel já representa mais de 30% da receita, demonstrando a importância da transformação digital. A empresa também explora o uso de Large Language Models (LLMs) para otimizar a precificação e a definição do mix de produtos nas lojas. No entanto, Machado aponta a conexão entre farmácia, laboratório, clínica e hospital como a fronteira mais desafiadora na área da saúde. Ele defende a quebra de barreiras institucionais para que os dados do paciente circulem livremente, algo essencial para uma abordagem mais integrada e centrada no paciente.
Perguntas em Aberto
A jornada de inovação da Panvel levanta questões importantes sobre a integração de dados na saúde e o papel da IA em processos críticos. A capacidade de conectar diferentes pontos da cadeia de saúde, respeitando a privacidade e a propriedade dos dados, será crucial para o futuro do setor. A Panvel, com seu modelo de inovação aberta e CVC pragmático, parece estar bem posicionada para navegar essas complexidades, mas o caminho para uma interoperabilidade completa ainda exige colaboração e quebra de silos entre as instituições.
O foco em resolver dores reais do negócio, sem se deixar levar por tendências passageiras, tem sido o diferencial da Panvel. A empresa demonstra que a inovação em setores tradicionais como o varejo farmacêutico não se limita ao balcão, mas se estende a toda a cadeia de valor, impulsionada por parcerias estratégicas e um olhar atento às necessidades operacionais e do cliente.
Com reportagem de Brazil Valley
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