A automação provocada pela inteligência artificial generativa não decretou o fim dos assistentes executivos, conforme temiam as previsões mais pessimistas do mercado. Em vez da extinção, o cargo atravessa uma transformação estrutural, migrando de uma função puramente administrativa para uma posição de suporte estratégico e tomada de decisão. Segundo reportagem da Fortune, empresas que buscam eficiência não estão cortando essas posições, mas exigindo um novo conjunto de competências que a tecnologia ainda não consegue replicar.
O mercado de trabalho sinaliza essa mudança através da valorização salarial. Dados da Payscale indicam que, no setor de tecnologia, novos contratados para cargos de suporte executivo possuem uma vantagem de 26% em relação aos funcionários já estabelecidos, com salários que atingem a marca de US$ 110 mil. Esse prêmio reflete a escassez de profissionais capazes de operar como verdadeiros braços direitos, equilibrando o uso estratégico de ferramentas de IA com a execução de fluxos de trabalho complexos.
A transição para o modelo de proxy
A essência da nova função é o que especialistas chamam de proxy, ou seja, o assistente que atua como um representante direto do executivo. Adnan Khan, cofundador da Viva Talent, destaca que o objetivo atual é que o profissional exerça menos tarefas de secretariado e assuma mais responsabilidades de gestão. Isso inclui a coordenação de iniciativas multifuncionais e a condução de reuniões em nome da liderança, tarefas que exigem uma compreensão profunda da estratégia da companhia.
Essa evolução aproxima o assistente executivo de papéis tradicionalmente ocupados por chefes de gabinete ou gerentes de operações. A automação das rotinas de agenda e controle de despesas liberou tempo para que esses profissionais se dediquem a atividades de maior valor agregado, como o acompanhamento de metas e a triagem de decisões prioritárias. A leitura aqui é que o cargo deixa de ser um custo operacional para se tornar um multiplicador de capacidade de execução do alto escalão.
O diferencial humano frente à tecnologia
O valor do assistente executivo na era da IA reside em qualidades que permanecem exclusivamente humanas: empatia, discernimento e a habilidade de construir relacionamentos. Diferente de um software, um assistente de alto nível funciona como um par, capaz de desafiar pressupostos e cobrar resultados. Essa dinâmica de accountability, onde o assistente atua como um contraponto crítico ao executivo, é considerada insubstituível por líderes que buscam evitar o isolamento na tomada de decisão.
Empresas como OpenAI e Anthropic, que desenvolvem as tecnologias que supostamente substituiriam tais cargos, continuam ativas na contratação desses perfis. O fato de que os criadores da própria tecnologia não abrem mão de assistentes humanos sugere que a ferramenta é vista como um complemento, e não como um substituto para a gestão de pessoas e processos complexos. A tecnologia serve para otimizar, mas a liderança continua dependendo de conexões interpessoais.
Implicações para o ecossistema corporativo
A mudança na natureza do cargo força uma reavaliação dos processos de contratação e treinamento. Para os executivos, o desafio passa a ser identificar talentos que possuam tanto a proficiência técnica para dominar ferramentas de IA quanto a maturidade emocional para gerenciar conflitos e liderar equipes. A exigência por habilidades de comunicação e visão de negócios torna-se, portanto, um requisito padrão, alterando a estrutura de custos e a hierarquia das empresas.
No Brasil, essa tendência pode ser observada na crescente demanda por secretariado executivo bilíngue com forte viés de gestão de projetos. A transição exige que os profissionais busquem especialização em gestão de dados e ferramentas de produtividade, garantindo que a tecnologia trabalhe a seu favor. O mercado brasileiro, conhecido pela necessidade de adaptação rápida a cenários instáveis, encontra nesse modelo de assistente estratégico um aliado valioso para a eficiência operacional.
O futuro da gestão de suporte
O que permanece incerto é como as empresas estruturarão os planos de carreira para esses profissionais que agora ocupam um espaço entre o suporte e a gestão. A tendência é que a barreira entre o assistente executivo e o gestor de projetos se torne cada vez mais tênue, criando novas trilhas de desenvolvimento interno dentro das organizações.
Os próximos anos dirão se essa valorização salarial será sustentável à medida que as ferramentas de IA se tornarem mais autônomas na gestão de fluxos de trabalho. A observação constante sobre o desempenho desses profissionais será o termômetro para medir o quanto a sofisticação tecnológica realmente altera a necessidade de intermediação humana no topo das empresas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





