A cidade de St. Louis, no Missouri, é o palco da terceira edição da Counterpublic Triennial, um evento que se propõe a ser mais do que uma simples exposição de arte. Com o nome Coyote Time, a trienal se expande por cinco locais principais, mas seu crescimento mais significativo não é físico, e sim conceitual. O objetivo, segundo reportagem da publicação de arte Hyperallergic, é apoiar práticas artísticas que estejam enraizadas em mudanças reais e tangíveis.

A ambição aqui é recalibrar a própria definição de “espaço público”. Em vez de apresentar obras em um circuito fechado, a Counterpublic se posiciona como um convite para experimentar a cidade de forma diferente. A tese editorial é clara: o modelo tradicional de bienais, frequentemente criticado por sua desconexão com as comunidades locais e sua dependência de grandes estruturas institucionais, está esgotado. A trienal de St. Louis emerge como um laboratório para testar uma alternativa.

Da crítica à construção

Na raiz da Counterpublic está uma insatisfação com o ciclo vicioso da crítica institucional. James McAnally, diretor artístico e cofundador, argumenta que a crítica, por si só, não é suficiente. “Se não conseguirmos imaginar e construir as instituições que queremos, a crítica se torna apenas mais uma instância de falar ao poder sem mudá-lo”, afirma ele ao Hyperallergic. Essa filosofia nasceu n'O Luminary, espaço alternativo que McAnally fundou em 2007, justamente para criar um contexto para artistas fora dos circuitos convencionais.

Para colocar essa visão em prática, a trienal abandona a figura do curador-chefe em favor de um “ensemble curatorial”. A estrutura coletiva busca equilibrar a autoria individual com uma voz comum, apresentando múltiplas perspectivas sobre temas como responsabilidade, acesso, clima e soberania indígena. É um movimento que troca a hierarquia pela colaboração, refletindo a própria mensagem do evento.

Uma cidade como tela

As intervenções artísticas são profundamente integradas ao tecido urbano e social de St. Louis. Os curadores selecionados desenvolvem projetos em locais que vão muito além de galerias. Stefanie Hessler e Wanda Nanibush, por exemplo, focam na ecologia do rio Mississippi. Jordan Carter trabalha com partituras e ensaios sobre o futuro em uma escola de ensino médio em funcionamento, enquanto Raphael Fonseca, com sua experiência como professor, desenvolve projetos com estudantes e um centro de reassentamento de refugiados.

Essa abordagem transforma a cidade em uma tela viva, onde a arte não é um objeto a ser contemplado, mas um processo a ser vivenciado. A inspiração vem tanto de artistas que redefiniram a escultura pública, como Richard Serra, quanto daqueles que exploraram a intimidade e a participação, como Felix Gonzalez-Torres. A ideia de “público”, aqui, ecoa o pensamento do artista Vito Acconci: algo que conecta, no mínimo, três pessoas.

A Counterpublic não oferece respostas fáceis. Ela se apresenta como uma investigação em andamento sobre o papel da arte em uma sociedade fragmentada. A questão que paira sobre St. Louis não é apenas se as obras são esteticamente relevantes, mas se este modelo de engajamento profundo pode, de fato, gerar um legado de mudança e inspirar novas formas de convivência urbana.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic