O que antes era roteiro de Hollywood agora é objeto de estudo sério em um dos principais laboratórios de pesquisa dos Estados Unidos. Cientistas do Lawrence Livermore National Laboratory publicaram simulações que avaliam o uso de uma bomba nuclear como último recurso para defender a Terra de um asteroide em rota de colisão. O estudo, liderado pelo astrofísico Isaiah Santistevan, modelou o efeito de uma ogiva de um megaton em um asteroide de 160 metros de diâmetro, concluindo que a estratégia pode, de fato, funcionar.

A pesquisa, reportada pelo portal Science Alert e repercutida no Brasil pelo Olhar Digital, move a defesa planetária para um território complexo, onde a tecnologia de aniquilação em massa se torna uma ferramenta potencial de salvação. A questão não é mais se é possível, mas quais as consequências de transformar um único problema em múltiplos fragmentos e, eventualmente, quem aperta o botão.

A física por trás da detonação

Ao contrário do imaginário popular, o plano não envolve pousar a bomba na superfície do asteroide — uma manobra de altíssima complexidade técnica. A detonação ocorreria a uma distância segura, de dezenas de metros. O principal mecanismo de ação não é a onda de choque se propagando pelo vácuo, mas a imensa quantidade de raios-X liberada pela explosão, que pode carregar entre 70% e 80% da energia total do dispositivo.

Essa radiação de alta energia atinge a superfície da rocha, aquecendo e vaporizando instantaneamente uma fina camada de material. A ejeção desse material em alta velocidade funciona como um propulsor, gerando um impulso que pode alterar a velocidade e, consequentemente, a trajetória do asteroide. Simultaneamente, a explosão induz uma onda de choque que se propaga pelo interior do corpo celeste, causando fraturas profundas e potencializando sua fragmentação.

O dilema dos fragmentos

As simulações, que usaram a estrutura porosa do asteroide Bennu como modelo, mostraram que uma detonação a 25 metros de distância seria capaz de danificar mais de 92% do material do objeto. Aqui, porém, reside a maior incerteza da estratégia: o destino dos destroços. O estudo, computacionalmente intenso, acompanhou o processo por apenas 145 milissegundos. Não há como saber o que acontece depois.

Os fragmentos poderiam se dispersar inofensivamente pelo espaço, se reagrupar pela própria atração gravitacional ou, no pior cenário, transformar uma única ameaça em uma "chuva" de meteoritos menores, mas ainda perigosos, sobre a Terra. Resolver essa questão exigirá simulações muito mais longas e complexas, que hoje são computacionalmente proibitivas.

A pesquisa estabelece uma base científica para uma opção de defesa planetária de emergência. A NASA já testou com sucesso o desvio de um asteroide por impacto cinético na missão DART, mas essa abordagem exige anos de antecedência. A opção nuclear seria a carta na manga para uma ameaça detectada tardiamente. O debate, contudo, está apenas começando e transcende a astrofísica, entrando nas searas da ética e da geopolítica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital