O governo da ilha espanhola de Mallorca apresentou uma nova ferramenta para o ensino de sua história: uma história em quadrinhos. Intitulada ‘La creació d’un regne’, a publicação foi desenvolvida para alunos do quinto e sexto ano do ensino fundamental, com o objetivo de narrar um período fundamental da formação da ilha de maneira “atraente, compreensível e rigorosa”, segundo Rafel Bosch, conselheiro de Fazenda e Inovação do Consell de Mallorca.

A iniciativa busca dar vida a episódios complexos, como os reinados de Jaume I e Jaume II, que definiram a configuração política e histórica local. A aposta em uma mídia popular como os quadrinhos sinaliza um reconhecimento estratégico: para que a história ressoe com as novas gerações, é preciso falar a sua língua. O projeto não é um improviso, mas uma produção profissional que pode servir de inspiração para instituições culturais em outros mercados, incluindo o Brasil.

Do papiro à narrativa visual

O desafio de engajar nativos digitais com temas históricos é universal. Em um ambiente saturado por estímulos visuais e narrativas ágeis, o formato tradicional do livro didático muitas vezes perde a batalha pela atenção. A iniciativa de Mallorca aborda essa questão de frente, tratando os quadrinhos não como uma simplificação, mas como um meio sofisticado de comunicação.

Para garantir a qualidade, o projeto reuniu uma equipe multidisciplinar: Llorenç Garrit assina o roteiro e as ilustrações, Pato Conde cuidou das cores para dar uma estética contemporânea, e o historiador Miquel J. Deyà supervisionou a precisão dos fatos, personagens e contextos. O resultado é uma ferramenta que une o rigor acadêmico à potência da narrativa gráfica, provando que é possível ser acessível sem sacrificar a complexidade.

Uma lição para o Brasil?

O Brasil possui uma história rica e, ao mesmo tempo, uma das cenas de quadrinhos mais vibrantes do mundo. No entanto, são raras as iniciativas institucionais que unem essas duas potências de forma estratégica. O projeto de Mallorca serve como um espelho: por que não usar o mesmo formato para explorar a Inconfidência Mineira, as expedições dos bandeirantes ou a formação dos quilombos?

A educação patrimonial vai além de preservar prédios e artefatos; trata-se de manter a relevância das narrativas que formam uma identidade coletiva. Ao transformar a história em uma experiência visual e envolvente, o governo de Mallorca não está apenas ensinando o passado, mas investindo na sua continuidade. A questão não é se os quadrinhos podem educar, mas se as instituições estão dispostas a adotar a linguagem necessária para se conectar com o futuro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España