Em meio a uma defesa de seus resultados econômicos, o presidente Javier Milei introduziu uma variável inesperada em seu balanço: o custo demográfico do aborto. Ao celebrar a queda da inflação e o ajuste fiscal, Milei mirou nos “pañuelos verdes”, símbolo do movimento pró-aborto na Argentina, para argumentar que o país está “pagando muito caro” pela legalização. A tese, apresentada sem dados que a comprovem, é direta: a “paixão por assassinar crianças no ventre da mãe” estaria custando ao país seu potencial de crescimento.

A lógica do presidente é que o nível atual de natalidade já não garante a reposição populacional. Para um economista, a implicação é clara e dupla. A curto e médio prazo, uma população que não cresce ou encolhe representa um mercado consumidor estagnado e uma força de trabalho em declínio. A longo prazo, o desafio se torna fiscal: menos contribuintes para sustentar um sistema previdenciário já pressionado. O que para muitos é uma questão de saúde pública e direitos individuais, na visão de Milei, torna-se um problema de sustentabilidade econômica.

A demografia como variável de ajuste

O movimento de Milei é notável por fundir duas correntes de pensamento que raramente andam juntas: o libertarianismo econômico radical e o conservadorismo social profundo. Globalmente, a preocupação com a queda da natalidade não é nova e ocupa debates em países como Japão, Itália e Coreia do Sul. A originalidade do presidente argentino está em enquadrar a questão não como um desafio cultural ou de bem-estar, mas como uma falha que compromete diretamente seu projeto de choque liberal.

Ao associar o aborto a um passivo econômico, Milei transforma o debate. A discussão deixa de ser apenas sobre valores e passa a ser sobre variáveis macroeconômicas. A leitura aqui é que, para o presidente, a reconstrução da Argentina não se resume a zerar o déficit e liberar mercados. Ela exige também a reconfiguração de um pilar que ele considera fundamental e negligenciado: o capital humano, contado desde a concepção. A questão que fica no ar é se essa é uma convicção profunda ou uma manobra retórica para energizar sua base conservadora enquanto os resultados sociais do ajuste ainda são sentidos de forma dura pela população.

Enquanto o presente se mede em taxas de desemprego e superávits, Milei convida a Argentina a olhar para o futuro através de uma lente incômoda: o berçário como um ativo — ou um passivo — no balanço da nação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney