A agência americana responsável por combater a discriminação no ambiente de trabalho deu um passo para parar de medi-la. A Comissão para a Igualdade de Oportunidades de Emprego (EEOC, na sigla em inglês), por uma votação de 2 a 1 de sua maioria republicana, propôs o desmantelamento de um sistema de coleta de dados demográficos que vigora há 60 anos.

Segundo reportagem do jornal britânico The Guardian, o argumento é paradoxal: exigir que empregadores classifiquem seus funcionários por raça e gênero poderia, em si, violar a garantia constitucional de proteção igualitária. A leitura do movimento, contudo, é que ele representa um ataque direto à capacidade do Estado de identificar e combater preconceitos sistêmicos, e não apenas casos isolados.

Sem dados, sem problema?

Desde a sua criação, o sistema de relatórios da EEOC funciona como uma espécie de censo do mundo corporativo americano. Ao compilar anualmente os dados demográficos enviados pelas empresas, a agência consegue enxergar padrões que seriam invisíveis na análise de uma única queixa. É o que permite diferenciar um incidente de uma política velada de exclusão.

Ao propor o fim dessa coleta, a atual gestão da EEOC adota na prática uma interpretação "colorblind" (daltônica, em tradução livre) da lei, na qual qualquer reconhecimento oficial de raça pelo Estado é visto como o problema a ser combatido. Trata-se de uma inversão da lógica que fundamentou as leis de direitos civis, cujo objetivo era justamente remediar os efeitos de séculos de discriminação, algo que exige, primeiro, reconhecer suas vítimas.

O ônus sobre o indivíduo

Na prática, a mudança pode transferir um peso ainda maior para o trabalhador. Sem dados agregados que demonstrem um padrão de viés em promoções, contratações ou demissões, um profissional que se sentir lesado terá muito mais dificuldade em provar que seu caso não é um fato isolado, mas parte de um problema estrutural da companhia.

A proposta, contudo, ainda não é final. O texto foi aberto para comentários públicos e uma audiência está marcada, indicando que haverá uma batalha política e jurídica pela frente. O que está em jogo é a própria definição das ferramentas que o poder público pode ou deve usar para garantir a isonomia no mercado de trabalho.

O movimento do EEOC força uma pergunta fundamental: é possível combater um problema que uma sociedade escolhe ativamente não medir? O debate transcende uma questão burocrática e toca no cerne do que significa igualdade de oportunidades, deixando o futuro das políticas antidiscriminatórias em um campo de profunda incerteza.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Guardian UK Business