Paredes verdes, projetadas para integrar a natureza ao ambiente urbano, enfrentam um escrutínio crítico após novos dados sobre segurança contra incêndios. Uma pesquisa conduzida pelo Fire Safety Engineering Group (FSEG) da Universidade de Greenwich, compartilhada com a revista Dezeen, indica que sistemas de paredes vivas que utilizam vasos de polipropileno podem falhar em testes de fogo em menos de quatro minutos.

Essa taxa de falha é alarmante por ser mais rápida do que a observada no sistema de revestimento de alumínio composto (ACM) utilizado na Grenfell Tower, tragédia ocorrida em 2017. Os autores do estudo alertam que a infraestrutura plástica desses jardins verticais representa um risco latente, desafiando a percepção comum de que apenas a vegetação seria o principal combustível em um eventual incêndio.

O papel do polipropileno na carga de incêndio

O modelo de simulação computacional desenvolvido pelo FSEG demonstrou que mais de 94% da liberação de calor em uma parede verde em chamas provém dos módulos de suporte de polipropileno, e não das plantas. Essa descoberta contradiz alegações de fabricantes que sustentam a segurança do sistema baseando-se na manutenção da umidade da vegetação.

Historicamente, a indústria tem defendido que plantas saudáveis e irrigadas mitigariam o risco. Contudo, a modelagem sugere que a estrutura polimérica atua como um motor para o crescimento do fogo, independentemente do estado da planta. Embora a umidade possa retardar o início da combustão, ela não impede a falha estrutural do sistema sob condições de estresse térmico severo.

Falhas na metodologia de testes

O debate sobre a segurança de fachadas é complexo devido à flexibilidade das normas de construção vigentes. No Reino Unido, desenvolvedores podem demonstrar conformidade por meio de testes de larga escala ou avaliações menores em componentes individuais. Especialistas criticam essa brecha, apontando que testes de pequena escala podem não refletir o comportamento real do sistema completo.

Alguns fabricantes utilizam classificações de fogo obtidas em condições de laboratório otimizadas, como amostras saturadas de água, para validar o uso de seus produtos em edifícios de maior risco. Essa prática ecoa o cenário pré-Grenfell, onde justificativas técnicas baseadas em testes limitados mascararam a periculosidade real de materiais combustíveis aplicados em larga escala.

Implicações para o setor imobiliário

As conclusões do estudo trazem implicações imediatas para reguladores, seguradoras e proprietários de edifícios. Se as paredes verdes são consideradas elementos estéticos e ambientais, a segurança contra incêndios não deve ser subordinada a esses fatores. Em edifícios de uso misto, hotéis e universidades, a presença desses sistemas exige uma reavaliação rigorosa da carga de fogo instalada.

No Brasil, onde a arquitetura bioclimática e as fachadas verdes ganham tração, o debate reforça a necessidade de critérios técnicos mais rígidos para a escolha de materiais. A substituição de polímeros combustíveis por materiais incombustíveis na estrutura de suporte é apontada pelos pesquisadores como uma medida urgente para reduzir a carga de incêndio e prevenir desastres.

Desafios para a regulação futura

O que permanece incerto é a rapidez com que as normas de segurança serão adaptadas para exigir testes de larga escala que simulem condições reais de pior cenário. A pressão por cidades mais verdes não pode atropelar a responsabilidade civil na construção de edifícios seguros.

O setor aguarda agora se haverá uma padronização internacional para o uso de polímeros em fachadas. A questão central não é a viabilidade da vegetação urbana, mas a integridade dos materiais que a sustentam. A segurança pública depende da capacidade de conciliar inovação estética com a mitigação de riscos estruturais conhecidos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Dezeen