O crepúsculo lança longas sombras sobre as formações rochosas verticais de Chiricahua, no sudeste do Arizona. O cenário, de beleza estonteante e quase alienígena, é agora oficialmente um Parque Nacional, o mais novo membro de uma família que já conta com 63 outros antes dele. A designação, que eleva Chiricahua ao mesmo patamar de ícones como Yosemite e o Grand Canyon, trouxe consigo um misto de celebração e apreensão. Para os entusiastas da conservação e para a economia local, é um triunfo. Para outros, a pergunta ecoa: no contexto de um Serviço Nacional de Parques (NPS) lutando contra um déficit de manutenção de bilhões de dólares, essa expansão é um luxo necessário ou um fardo insustentável?
A discussão sobre a criação de novos parques nacionais nos Estados Unidos é intrinsecamente ligada à própria essência do que significa "parque nacional". Estabelecido em 1872, o Parque de Yellowstone foi o pioneiro, mas o Serviço Nacional de Parques só viria a ser formalizado em 1916, com a Lei Orgânica. O objetivo era claro: "conservar a paisagem e os objetos naturais e históricos e a vida selvagem ali contidos e proporcionar o seu usufruto de tal maneira e por tais meios que os deixem em estado de serem usufruídos pelas gerações futuras". Conservação e usufruto público, em harmonia. No entanto, o caminho para se tornar um Parque Nacional de pleno direito é árduo. Atualmente, o NPS gerencia 433 unidades, mas apenas 64 ostentam o cobiçado título de Parque Nacional. A rota para essa designação máxima passa obrigatoriamente por um ato do Congresso, exigindo a aprovação de ambas as casas legislativas e a sanção presidencial. Essa dificuldade legislativa é intencional, um filtro para garantir que a designação seja reservada a locais de excepcional valor e significado.
A questão central que emerge com a designação de Chiricahua é se esse título, o mais prestigiado dentro do NPS, ainda detém a mesma força e exclusividade de outrora. Críticos argumentam que as paisagens mais espetaculares já foram protegidas, e que as adições recentes, embora belas, não se comparam à grandiosidade de parques estabelecidos há décadas. Essa perspectiva sugere uma potencial diluição da marca "Parque Nacional", transformando um selo de excelência em algo mais comum. No entanto, defensores argumentam que a designação de Parque Nacional oferece um nível de proteção e reconhecimento que outras designações, como Monumento Nacional ou Área de Recreação Nacional, não alcançam. A proteção como Monumento Nacional, por exemplo, embora robusta, tem se mostrado vulnerável a alterações políticas, como visto com os casos de Bears Ears e Grand Staircase-Escalante, cujas fronteiras foram alteradas por diferentes administrações presidenciais. Assim, a designação de Parque Nacional confere uma permanência e um peso simbólico que transcende a mera proteção territorial.
O impacto econômico de um Parque Nacional é inegável. Comunidades locais frequentemente experimentam um aumento significativo no turismo e na atividade econômica após a elevação de uma área a Parque Nacional. O caso do New River Gorge National Park and Preserve, na West Virginia, exemplifica isso: em 2025, registrou mais de 2 milhões de visitas, um aumento de 64% em relação a 2019, antes de sua redesignação. Contudo, essa expansão nem sempre é bem recebida por todas as comunidades. Em áreas como as Adirondacks, em Nova York, moradores locais já expressaram resistência a propostas de conversão de terras estaduais em parques federais, citando preocupações com o controle local e restrições de uso da terra. A designação pode trazer benefícios econômicos, mas também impõe novas regras e pode limitar atividades tradicionais, gerando tensões entre conservação e desenvolvimento local.
A maior sombra sobre a expansão do sistema de parques é o déficit de manutenção do NPS, que ultrapassa os US$ 22 bilhões. Essa crise orçamentária levanta a questão: como o serviço pode arcar com a adição de novas unidades quando já luta para manter as existentes? A resposta oficial é que as novas designações não implicam um aumento direto no orçamento. As unidades recém-designadas, como Chiricahua, geralmente já faziam parte do sistema NPS sob outra denominação (neste caso, Monumento Nacional) e sua gestão já está contemplada no orçamento existente. A mudança de nome, segundo especialistas, não acarreta custos adicionais de gestão. Contudo, a falta de recursos para manutenção e pessoal, como no caso do New River Gorge, onde o número de funcionários foi reduzido após cortes orçamentários, sugere que a capacidade de gerenciar adequadamente as unidades existentes e futuras é uma preocupação legítima. A questão, portanto, não é apenas sobre adicionar um novo "filho" à família, mas sobre garantir que todos os "filhos" recebam os cuidados necessários.
O debate sobre a diluição da marca "Parque Nacional" é talvez o mais subjetivo, mas não menos importante. Nos últimos dez anos, cinco novas designações de Parques Nacionais foram feitas: Gateway Arch, Indiana Dunes, White Sands, New River Gorge e Chiricahua. Todas foram promoções internas de outras unidades do NPS. A crítica reside na percepção de que a qualidade paisagística e de recursos naturais dessas novas unidades não se equipara à de parques mais antigos e icônicos. Enquanto um Monumento Nacional pode ser estabelecido para proteger um único recurso de significado nacional, um Parque Nacional visa preservar uma variedade de recursos e, geralmente, paisagens de grande escala. Chiricahua, com seus 12.000 acres, ou o Gateway Arch, com menos de 200 acres, são exemplos de unidades que, embora significativas, são consideravelmente menores e podem não oferecer a mesma diversidade de experiências que parques como Yellowstone ou o Grand Canyon. Essa disparidade de tamanho e escopo levanta a questão sobre se a designação máxima está sendo aplicada de forma consistente, ou se o critério de "significância nacional" se tornou mais flexível. A designação de Parque Histórico Nacional de Ocmulgee Mounds, na Geórgia, que está em consideração, com menos de 2.000 acres e foco histórico, intensifica essa discussão.
No entanto, a visão oposta, defendida por alguns ativistas, é que não existe tal coisa como a diluição dos parques nacionais. Para eles, cada nova designação, independentemente do tamanho ou das características específicas, traz atenção para a unidade em questão e para o sistema NPS como um todo, o que é intrinsecamente positivo. Essa perspectiva valoriza a diversidade do sistema, reconhecendo que cada unidade, com sua designação única, contribui para a missão geral de conservação e educação. A questão que permanece é onde traçar a linha: quando a expansão se torna um risco para a integridade do sistema, e quando ela serve como um motor para maior conscientização e proteção? A beleza austera de Chiricahua, agora sob o manto de Parque Nacional, nos convida a refletir sobre o futuro de um dos legados mais preciosos da América.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Outside Online




