Em 15 de outubro de 1991, a Terra foi palco de um evento cósmico extraordinário: a detecção da partícula "Oh-My-God", o raio cósmico mais energético já registrado. Este único próton, viajando a uma velocidade quase idêntica à da luz (99,99999999999999999999951%), colidiu com a atmosfera terrestre, gerando um alarme generalizado nos instrumentos do observatório Olho da Mosca (Fly’s Eye), em Utah, nos Estados Unidos. A energia concentrada neste próton era tão colossal que equivalia ao impacto de uma bola de boliche caindo no pé de alguém, um nível de poder que parecia fisicamente impossível para uma partícula subatômica. O espanto diante dessa medição sem precedentes levou os pesquisadores a batizá-la de "Oh-My-God" (Ai, meu Deus!). Embora a Terra seja constantemente bombardeada por raios cósmicos, partículas de alta energia vindas do espaço, eventos de tal magnitude são extremamente raros, ocorrendo em uma área de um quilômetro quadrado apenas uma vez a cada século de observação contínua.

A Busca pela Origem da "Bomba Cósmica"

A descoberta da partícula "Oh-My-God" não foi um evento isolado na história da investigação de raios cósmicos. A jornada para entender essas energias vindas do espaço profundo começou em 1911 com o físico austríaco Victor Hess. Ao realizar experimentos com balões de ar quente equipados com medidores de radiação, Hess demonstrou que a intensidade da radiação aumentava com a altitude, provando que sua origem era extraterrestre. Ele batizou esse fenômeno de raios cósmicos, que hoje sabemos serem compostos principalmente por prótons e núcleos atômicos.

A Evolução dos Detectores e o Fenômeno dos "Chuveiros Energéticos"

Ao penetrarem na atmosfera terrestre, os raios cósmicos interagem com os gases atmosféricos, desencadeando uma cascata de reações conhecida como "chuveiros energéticos". Essas colisões criam partículas secundárias, menos energéticas, que caem em direção ao solo. Embora invisíveis a olho nu e imperceptíveis em termos de sensação, esses chuveiros podem ser detectados por câmeras e sensores especializados. "O chuveiro energético se refere à partícula entrando na atmosfera e decaindo em vários outros tipos de partículas menos energéticas", explicou Carlos Henrique Coimbra-Araújo, professor associado da Universidade Federal do Paraná. Esses fragmentos, por vezes, chegam a interferir em sistemas eletrônicos de aeronaves, evidenciando a violência da colisão original nas altas camadas da atmosfera.

O Maior Mistério da Astrofísica Moderna

A extrema raridade de eventos como o da partícula "Oh-My-God" torna seu estudo um desafio. As medições obtidas pelo observatório de Utah na década de 1990 superaram em muito qualquer registro anterior. Para tentar capturar mais desses fenômenos, cientistas têm desenvolvido testes audaciosos, como disparar lasers de helicópteros em direção a balões estratosféricos para simular o rastro luminoso deixado por essas partículas. A esperança é que novos instrumentos em órbita terrestre possam monitorar áreas maiores e, finalmente, rastrear a origem exata desses raios cósmicos.

As principais hipóteses para a origem dessas partículas energéticas apontam para fenômenos astrofísicos extremos, como buracos negros supermassivos nos centros galácticos ou a fusão de galáxias. Contudo, a principal dificuldade em identificar a fonte reside na natureza carregada dessas partículas. "Isso faz com que os campos magnéticos que existem no meio do caminho acabem por mudar a trajetória da partícula", esclarece Coimbra-Araújo. Os campos magnéticos intergalácticos, além de fontes mais localizadas como estrelas e galáxias, desviam a trajetória dessas partículas, tornando impossível determinar seu ponto de partida original sem dados coletados diretamente no espaço e sem contornar esses desvios magnéticos. Assim, a partícula "Oh-My-God" permanece um dos maiores enigmas do Universo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital