Em 1999, quando a internet ainda engatinhava em termos de adoção massiva e a bolha das pontocom inflava sem controle, Paulina Borsook publicou "Cyberselfish: A Culture of Responsibility Toward Technology". O livro, um ensaio incisivo e muitas vezes desconfortável, mergulhava na psique dos pioneiros da tecnologia, desvendando uma cultura de autoinvestimento e uma aversão à responsabilidade que, segundo Borsook, moldariam o futuro digital de formas profundas e, em muitos casos, problemáticas. Mais de duas décadas depois, em um mundo dominado por gigantes como Google, Meta e Amazon, as anotações de Borsook não apenas resistiram ao tempo, mas ganharam uma relevância profética, soando como um eco perturbador das controvérsias atuais.
O cerne da análise de Borsook reside na observação de uma mentalidade peculiar entre os profissionais de tecnologia, especialmente os fundadores e líderes de startups. Ela os descreve como indivíduos imersos em uma cultura de "autossuficiência cibernética" – um ethos que valoriza a inovação a qualquer custo, a crença na própria infalibilidade e uma relutância em aceitar responsabilidades externas, sejam elas sociais, éticas ou regulatórias. Essa autossuficiência, argumenta Borsook, não é apenas uma característica pessoal, mas um pilar cultural que permite que essas empresas operem com uma audácia que frequentemente ignora as consequências para a sociedade. A ideia de que a tecnologia, por si só, é inerentemente boa ou neutra, e que seus criadores estão imunes às falhas humanas comuns, é um dos temas recorrentes que Borsook desmantela com maestria.
A relevância de "Cyberselfish" hoje é inegável. As mesmas empresas que Borsook analisou, ou seus descendentes espirituais, agora detêm um poder sem precedentes sobre a informação, a comunicação e até mesmo a fabricação da realidade social. As preocupações com a privacidade, a disseminação de desinformação, o impacto na saúde mental e a concentração de poder econômico e político, todas elas presentes em debates atuais, encontram ressonância direta nas críticas de Borsook. Ela já apontava para a tendência de a tecnologia ser vista não como uma ferramenta a ser controlada, mas como uma força autônoma com sua própria agenda, e para a forma como a cultura corporativa dessas empresas incentivava a evasão de responsabilidade através de discursos sobre "progresso" e "inovação disruptiva".
O que torna "Cyberselfish" uma leitura tão poderosa, e talvez por isso tão pouco celebrada em seu lançamento, é a sua recusa em aceitar a narrativa otimista e tecnófila que dominava o final dos anos 90 e que, em muitos aspectos, persiste até hoje. Borsook não era uma ludista; ela reconhecia o potencial transformador da tecnologia. Contudo, ela insistia que o desenvolvimento tecnológico não ocorria em um vácuo social e ético. A responsabilidade, para ela, era um componente intrínseco e inegociável da inovação significativa e sustentável. Sua obra nos força a questionar se a urgência em "mover as coisas", como sugere Chris Dixon em uma reflexão contemporânea, deve sempre vir acompanhada de um senso de propósito coletivo e responsabilidade duradoura, ou se a velocidade por si só pode se tornar um fim em si mesmo, obscurecendo os custos reais do progresso.
"Cyberselfish" permanece como um lembrete de que as reflexões críticas sobre a tecnologia não são um luxo pós-moderno, mas uma necessidade contínua. A cultura de responsabilidade que Borsook defendia é, talvez, a peça que falta no complexo quebra-cabeça da nossa era digital. E a pergunta que paira, 27 anos depois, é se estamos finalmente prontos para ouvir essa profetisa, ou se continuaremos a nos afogar na autossuficiência cibernética que ela tão perspicazmente diagnosticou.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





