Na Idade Média, o peixe era considerado uma ameaça à saúde, capaz de gerar fleuma em excesso. O açúcar, por outro lado, era um artigo de luxo com propriedades medicinais benéficas. Essas noções, que soam absurdas para a ciência nutricional contemporânea, eram o pilar de um sofisticado sistema de saúde que regia a vida de nobres e plebeus. A lógica não era o sabor ou a escassez, mas uma complexa teoria médica herdada da Antiguidade.
A publicação de um excerto do livro The Medieval Guide to Healthy Living, da historiadora Katherine Harvey, no portal Lit Hub, oferece um fascinante vislumbre desse universo. A tese central é que a alimentação medieval estava longe de ser um ato de subsistência desregrado. Pelo contrário: era uma forma de medicina preventiva e aplicada, onde cada ingrediente, método de cozimento e ordem dos pratos tinha um propósito claro, ainda que baseado em premissas científicas hoje superadas. Entender essa lógica é menos um exercício de curiosidade histórica e mais um espelho para nossas próprias obsessões com a dieta e o bem-estar.
A culinária como farmacologia
O fundamento de toda a dietética medieval era a teoria humoral, popularizada pelo médico greco-romano Galeno. A saúde dependia do equilíbrio de quatro fluidos corporais, ou humores — sangue, fleuma, bile amarela e bile negra —, cada um associado a qualidades de quente, frio, úmido ou seco. A comida, por sua vez, possuía as mesmas qualidades e podia reforçar ou combater desequilíbrios no corpo. A digestão era vista como um processo de “cozimento” em três estágios, que transformava o alimento em novos humores e, literalmente, em novas partes do corpo. A máxima “você é o que você come” era, para eles, uma verdade literal.
Nesse sistema, o peixe, por ser considerado “frio e úmido”, era problemático, pois gerava fleuma e era visto como indigesto. Para mitigar o risco, deveria ser frito ou assado (métodos “secos”) e servido com molhos ácidos e especiarias “quentes”. A carne de boi, “seca”, era mais adequada a trabalhadores braçais e deveria ser cozida em água para umedecê-la. Já o frango, de qualidades moderadas, era o alimento ideal para os doentes e os ricos, de estômagos delicados. O açúcar, hoje um vilão metabólico, era classificado como “quente e úmido”, sendo recomendado para os pulmões e rins. Era, em essência, um sistema onde a cozinha operava como uma farmácia.
O manual de instruções do corpo
A aplicação dessa teoria ia muito além da escolha de ingredientes. Métodos de preparo, temperos e a ordem das refeições eram cruciais. Molhos à base de vinagre não apenas adicionavam sabor, mas estimulavam o apetite. Especiarias como pimenta e açafrão, ambas “quentes e secas”, não eram meros símbolos de status, mas agentes terapêuticos que auxiliavam a digestão e combatiam a fleuma. A refeição seguia uma ordem de digestibilidade: começava-se com itens leves para “abrir” o estômago, como frutas cristalizadas, e terminava-se com os mais pesados, como queijos ou carnes mais gordurosas, para não sobrecarregar o sistema.
Esse conhecimento, claro, era um luxo. Apenas as casas mais abastadas, como a do rei Eduardo IV da Inglaterra, tinham médicos à mesa aconselhando sobre o cardápio. Para a nobreza, a dieta também servia como pretexto. Registros papais estão repletos de dispensas para nobres que não podiam jejuar ou comer peixe durante a Quaresma por “razões de saúde”. O próprio Eduardo IV obteve uma permissão papal para comer carne, alegando que o consumo de peixe seria “prejudicial à sua saúde e colocaria sua vida em perigo”. Embora soe como uma desculpa conveniente, a alegação era perfeitamente compatível com a teoria médica da época, demonstrando como a ciência e a cultura se entrelaçam para justificar comportamentos.
O abismo entre a ciência medieval e a atual é evidente. Hoje, entendemos a circulação do sangue, o papel das calorias e os riscos do açúcar. Ainda assim, a ansiedade em otimizar a saúde através da alimentação permanece intacta. Trocamos a teoria humoral pela análise de microbiomas e a contagem de macronutrientes. As ferramentas mudaram, mas a busca por um manual de instruções para o corpo através do que comemos parece ser uma constante humana, seja no século XV ou no XXI.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





