A Península Ibérica está se projetando como um novo polo estratégico para a infraestrutura digital na Europa, impulsionada pela crescente demanda por capacidade computacional e conectividade na era da inteligência artificial (IA). Um estudo recente da Dstream Group, encomendado pela DE-CIX, propõe um modelo inovador de "Capital Digital Distribuída", unindo Madrid, Lisboa e Barcelona em um ecossistema interconectado. Essa iniciativa visa oferecer uma alternativa robusta aos tradicionais centros de dados europeus, conhecidos como FLAP (Frankfurt, Londres, Amsterdã e Paris).

O conceito de Capital Digital Distribuída busca capitalizar as forças individuais de cada cidade ibérica para criar um hub coeso. Madrid, Lisboa e Barcelona, quando analisadas em conjunto, já atendem a mais de 80% dos critérios estabelecidos pela Dstream Group para uma capital digital global. Embora individualmente apresentem limitações, a integração dessas cidades promete uma combinação de recursos que inclui capacidade computacional, conectividade internacional, redundância geográfica e flexibilidade na distribuição de cargas de trabalho de IA.

O Cenário da IA e a Nova Geografia Digital

A expansão da IA está redefinindo a paisagem dos investimentos em tecnologia. O treinamento de modelos complexos exige alta concentração de poder computacional e energia, enquanto a inferência — a etapa de execução das tarefas e aplicações — demanda infraestrutura distribuída, próxima dos usuários e com baixa latência. Essa necessidade de proximidade e baixa latência transforma a conectividade, tornando-a parte integrante da arquitetura das aplicações de IA, e não apenas um meio de transporte de dados. O modelo ibérico se alinha a essa tendência, combinando grandes centros de processamento com infraestruturas regionais e pontos de interconexão estratégicos.

Infraestrutura Robusta e em Expansão

A Península Ibérica já demonstra um ecossistema digital expressivo. No final de 2025, a região contava com mais de 150 data centers em operação e planos para 8,95 GW de capacidade adicional, um potencial de expansão superior a 20 vezes. As três principais cidades — Madrid, Lisboa e Barcelona — abrigam cerca de 100 data centers com 436 MW de capacidade instalada de TI. O crescimento, no entanto, não se limita a esses centros, com projetos se expandindo para outras regiões como Aragão, Extremadura e Sines, promovendo uma distribuição geográfica mais ampla da infraestrutura.

Conectividade e Interconexão como Diferenciais

A conectividade internacional é um dos pilares da proposta. No início de 2026, a região possuía 35 sistemas de cabos submarinos em 20 pontos de amarração, com mais quatro em construção, além de uma extensa rede terrestre de fibra óptica. A infraestrutura de interconexão também é notável, com 13 Internet Exchanges (IXs) em Madrid, Lisboa e Barcelona conectando mais de 800 redes. Essa estrutura facilita conexões diretas entre provedores de cloud, operadoras, empresas e plataformas digitais, reduzindo a dependência de rotas intermediárias e otimizando o desempenho de aplicações. A baixa latência entre as cidades ibéricas — aproximadamente 7 ms entre Madrid e Barcelona, 8 ms entre Madrid e Lisboa, e 15 ms entre Lisboa e Barcelona na rede DE-CIX — é crucial para distribuir cargas de trabalho sem comprometer aplicações sensíveis ao tempo de resposta.

A proposta de uma capital digital distribuída para a Península Ibérica representa uma visão ambiciosa para o futuro da infraestrutura digital europeia. Ao integrar os pontos fortes de Madrid, Lisboa e Barcelona, a região busca não apenas aumentar sua participação no mercado europeu de cloud e IA, mas também estabelecer um novo paradigma de resiliência e eficiência, adaptado às exigências da era da inteligência artificial. O sucesso dependerá da colaboração contínua entre os setores público e privado e da capacidade de adaptação às rápidas evoluções tecnológicas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside