O Pentágono está desenvolvendo um plano ambicioso para garantir que todas as principais bases militares nos Estados Unidos continentais possam operar de forma autônoma por pelo menos 90 dias, mesmo em cenários de corte de energia e cadeias de suprimentos. Essa iniciativa, conhecida como FORTRESS (Federal Operations for Resilience, Troop Resources, Energy, Supply, and Survivability), visa a independência da rede elétrica civil, com a adoção de micro-reatores nucleares portáteis, sistemas de armazenamento de energia em larga escala e micro-redes. A meta de 90 dias de autossuficiência se estende além da eletricidade, abrangendo água, combustível e comunicações, além de exigir múltiplas rotas de suprimento para componentes críticos. O plano também incorpora a identificação de fábricas comerciais capazes de migrar para a produção de defesa em caso de crise, através do Civil Reserve Manufacturing Network. A necessidade dessa preparação surge em um contexto de alertas sobre hackers patrocinados pelo Estado chinês, como o grupo Volt Typhoon, que têm comprometido redes de infraestruturas críticas nos EUA, com potencial para interrupção de serviços essenciais em conflitos futuros. Embora o Pentágono não tenha divulgado um cronograma ou custo exato, estima-se que a implementação possa levar décadas e custar dezenas a centenas de bilhões de dólares.
Preparação em Casa: O Alerta Britânico
Paralelamente às ações militares americanas, o Reino Unido lançou a campanha "Be Ready", incentivando as famílias a se prepararem para até três dias sem serviços essenciais. A orientação inclui o armazenamento de água potável (três litros por pessoa ao dia), alimentos não perecíveis que não necessitem de cozimento ou refrigeração, lanternas, carregadores portáteis, kits de primeiros socorros e rádios a pilha ou manivela. A recomendação de manter dinheiro em espécie também visa mitigar problemas em caso de falha nos sistemas de pagamento eletrônico e caixas eletrônicos. Essa campanha faz parte de uma estratégia de três anos focada em emergências, incluindo eventos climáticos severos. No entanto, a liderança de defesa britânica tem sido mais explícita sobre as ameaças de segurança nacional. O Secretário de Defesa britânico, Wes Streeting, alertou que adversários podem possuir a força e a economia de guerra para atacar até 2030, destacando a necessidade de preparação em menos de mil dias. As preocupações se estendem a ameaças de estados hostis, ataques cibernéticos, crime organizado e mudanças climáticas, com a Rússia, China e Irã sendo identificados como atores que já sondam sistemas britânicos.
A Sombra da Guerra Híbrida
A iniciativa FORTRESS e a campanha "Be Ready" refletem uma crescente preocupação global com a resiliência de infraestruturas críticas diante de ameaças de guerra híbrida. A Agência de Segurança Cibernética e Infraestrutura dos EUA (CISA), a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o FBI emitiram um alerta conjunto em fevereiro de 2024 sobre a atividade de hackers chineses. A Microsoft já havia sinalizado o grupo Volt Typhoon em 2023. Esses ataques visam redes nos setores de comunicação, energia, transporte e água, com o potencial de causar disrupções significativas em tempos de conflito. A natureza dessas ameaças, que podem ocorrer antes mesmo do início de hostilidades abertas, exige uma abordagem proativa de governos e cidadãos. A autossuficiência energética e a diversificação de cadeias de suprimentos tornam-se imperativas para garantir a continuidade das operações militares e a estabilidade social.
Implicações e Respostas Globais
As ações do Pentágono e do governo britânico não são isoladas. Em março de 2025, a Comissão Europeia apresentou uma estratégia de preparação que inclui diretrizes para que os cidadãos da UE mantenham suprimentos de emergência para 72 horas. Nos Estados Unidos, o mês de setembro, dedicado à preparação nacional, viu o presidente emitir mensagens de alerta sobre ameaças naturais e provocadas pelo homem. A convergência de fatores como instabilidade geopolítica, avanços em guerra cibernética e a vulnerabilidade de infraestruturas interconectadas — como cabos submarinos e redes de energia — intensifica a necessidade de planos de contingência robustos. A própria natureza da próxima guerra pode mudar, começando não em um campo de batalha, mas com o apagão de serviços essenciais.
Perguntas em Aberto
Embora os planos de contingência estejam em andamento, muitas questões permanecem em aberto. O custo exato e o cronograma para a implementação completa do FORTRESS ainda são incertos, com projeções que indicam a necessidade de décadas para alcançar os objetivos. A eficácia das medidas de cibersegurança contra atores estatais sofisticados, como os mencionados, ainda será testada. Além disso, a coordenação entre diferentes agências governamentais e o setor privado é crucial para o sucesso dessas iniciativas. A capacidade de manter a autossuficiência por 90 dias, ou mesmo a preparação doméstica para três dias, dependerá da colaboração contínua e da adaptação a um cenário de ameaças em constante evolução.
O cenário global sugere uma nova era de preparação, onde a resiliência de infraestruturas e a capacidade de resposta a crises não convencionais se tornam tão importantes quanto a capacidade militar tradicional. A interconexão do mundo moderno, ao mesmo tempo que traz benefícios, também cria vulnerabilidades que exigem atenção constante e planos de contingência bem elaborados.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune



