Há duas décadas, o pequeno vilarejo de Peque, na comarca de La Carballeda, na província de Zamora, Espanha, esteve no centro de um intenso debate nacional. Em agosto de 2006, o então prefeito, Rafael Lobato, ofereceu 2.000 hectares de terreno comunal ao governo para a instalação de um Almacén Temporal Centralizado (ATC) de resíduos nucleares. A proposta visava combater a despovoação que assolava a região, prometendo um investimento de 1.000 milhões de euros, 300 empregos durante a fase de construção e 110 postos de trabalho permanentes. No entanto, a iniciativa enfrentou uma resistência unânime e imediata por parte dos moradores.
Os vizinhos de Peque, que na época contava com 166 habitantes censados (número que hoje caiu para 111), organizaram-se rapidamente. Criaram a Plataforma Antinuclear de Peque e recolheram mais de 4.000 assinaturas contra o projeto. Manifestações tomaram as ruas, com a colocação de laços negros, bandeiras pretas e faixas em janelas e varandas. Um evento marcante foi o "enterro da comarca", que atraiu cerca de 6.000 pessoas para um vilarejo com pouco mais de uma centena de moradores, simbolizando a rejeição à ideia de se tornar o destino final dos resíduos radioativos da Espanha.
O Dilema da Despovoação e o Medo Nuclear
A oferta do prefeito Lobato expôs um dilema comum em muitas regiões rurais da Espanha: a necessidade de desenvolvimento econômico e a preservação da identidade e do meio ambiente. Peque, como muitas outras localidades, sofria com o êxodo rural e a falta de oportunidades, o que levou o prefeito a buscar uma solução drástica. A promessa de um grande investimento e a criação de empregos eram, à primeira vista, um alento para a economia local. Contudo, o medo e a preocupação com as implicações ambientais e de saúde a longo prazo falaram mais alto entre a população.
O projeto do ATC previa o armazenamento de combustível nuclear gasto e outros resíduos radioativos de alta atividade, encapsulados e protegidos em instalações de concreto e aço, com projeção de durar cerca de 60 anos. A ideia era centralizar esses materiais perigosos em um único local sob vigilância. Apesar da garantia de segurança apresentada, a comunidade temia os riscos associados à radiação e ao transporte desses materiais, além do impacto na paisagem e no modo de vida local. A mobilização popular demonstrou que, para os moradores de Peque, a segurança e a tranquilidade eram mais valiosas do que os benefícios econômicos prometidos.
A Rejeição e as Consequências Políticas
A pressão da comunidade foi tão intensa que, após apenas 40 dias da oferta inicial, o Ayuntamiento de Peque renunciou formalmente ao projeto. O próprio prefeito admitiu posteriormente que buscava "evitar outro Puerto Hurraco", uma referência a um crime ocorrido em 1990 em uma região vizinha, e lamentou que os problemas estruturais do município, como estradas precárias e falta de infraestrutura, permanecessem sem solução. A renúncia marcou o fim da possibilidade de Peque sediar o depósito nuclear.
As repercussões políticas e pessoais para o ex-prefeito foram significativas. Após deixar a alcaldia em 2007, Lobato enfrentou uma década de disputas legais, incluindo processos relacionados ao acesso a suas terras e taxas agropecuárias, que ele alegava serem tentativas de perseguição administrativa. Em 2016, foi agredido no campo, sofrendo um coágulo cerebral, episódio que ele atribuiu a conflitos locais. A história de Peque ilustra como a vontade coletiva pode sobrepor-se a decisões políticas e econômicas, mesmo em contextos de vulnerabilidade social.
O Destino do Projeto Nuclear na Espanha
Após a rejeição de Peque, o projeto do Almacén Temporal Centralizado (ATC) buscou outros destinos. Em 2011, Villar de Cañas, em Cuenca, foi escolhido, mas o projeto ficou paralisado a partir de 2018 devido a litígios e mudanças políticas. Em novembro de 2022, o governo espanhol optou por uma nova estratégia: a construção de sete armazéns individuais, localizados junto às próprias centrais nucleares. Essa decisão foi consolidada em dezembro de 2023, com a aprovação do Sétimo Plano Geral de Resíduos Radioativos, que descartou definitivamente a ideia de um ATC centralizado e estabeleceu um cronograma para o encerramento das usinas nucleares espanholas entre 2027 e 2035.
A história de Peque serve como um estudo de caso sobre a resistência comunitária a projetos de alto impacto ambiental e social. A decisão do vilarejo espanhol em 2006, embora tenha sido apenas um capítulo em uma longa saga de planejamento de resíduos nucleares na Espanha, demonstrou a força da mobilização popular e a prioridade dada pela comunidade à sua qualidade de vida e segurança em detrimento de promessas de desenvolvimento econômico.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Energia Nuclear
A decisão de descartar o ATC centralizado e optar por armazéns individuais junto às usinas levanta novas questões sobre a gestão de longo prazo dos resíduos nucleares na Espanha. Embora o fechamento das centrais esteja programado, a questão de como gerenciar o combustível nuclear gasto e outros resíduos radioativos de alta atividade continuará a ser um desafio por décadas, senão séculos. A busca por soluções seguras e socialmente aceitáveis para o descarte desses materiais é um processo contínuo e complexo.
O legado de Peque é a demonstração de que a participação cidadã ativa pode moldar o futuro de uma região. A rejeição ao depósito nuclear não apenas protegeu o vilarejo de potenciais riscos ambientais, mas também reafirmou o direito das comunidades de terem voz nas decisões que afetam diretamente suas vidas e seu território. A Espanha, assim como outros países, continua a navegar pelas complexidades da energia nuclear e seus subprodutos, buscando um equilíbrio entre as necessidades energéticas e a responsabilidade ambiental e social.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





