A órbita terrestre, uma infraestrutura cada vez mais vital para a comunicação, navegação e observação, está se tornando perigosamente congestionada. A Agência Espacial Europeia (ESA) monitora cerca de 47.080 objetos, dos quais aproximadamente 11.840 permanecem em órbita, muitos deles inativos. A proliferação de detritos, estimada em mais de 1,2 milhão de fragmentos com mais de um centímetro, representa não apenas um risco ambiental, mas também econômico. Colisões podem destruir ativos de milhões de euros e gerar mais lixo, comprometendo a viabilidade futura de novas missões e constelações comerciais.

É nesse cenário que surge a PERSEI Space, uma startup espanhola de tecnologia profunda (deep tech) originada na Universidade Carlos III de Madrid (UC3M). Fundada em 2023 por pesquisadores com experiência em projetos europeus, a empresa busca capitalizar a necessidade crescente de infraestrutura orbital segura e sustentável. A PERSEI Space está desenvolvendo sistemas inovadores para desorbitar satélites sem a necessidade de consumir combustível, uma abordagem que promete reduzir custos, massa e complexidade operacional.

O Mecanismo da Amarra Eletrodinâmica

A tecnologia central da PERSEI Space é a "amarra eletrodinâmica". Trata-se de uma fita condutora que, uma vez desdobrada do satélite, interage com a corrente elétrica da ionosfera e o campo magnético terrestre. Essa interação gera uma força que, gradualmente, modifica a órbita do satélite, puxando-o para altitudes mais baixas e, eventualmente, para a reentrada atmosférica. Ao contrário dos métodos tradicionais que dependem de motores e consumo de propelente, a tecnologia da PERSEI Space utiliza o próprio ambiente espacial para realizar a manobra de desorbitação. Essa abordagem é fundamental para tornar a remoção de detritos uma solução comercialmente viável e ecologicamente responsável.

Da Pesquisa Universitária ao Produto Comercial

O desenvolvimento da amarra eletrodinâmica não é recente. A tecnologia tem sido aprimorada ao longo de anos em projetos europeus. Um marco importante foi o projeto E.T.PACK-F, no qual a PERSEI Space participou e que recebeu 2,5 milhões de euros do European Innovation Council. Este projeto elevou a tecnologia ao nível TRL 8, indicando que está pronta para demonstração em condições reais. A próxima etapa crucial será a demonstração em órbita, prevista para 2027, com um protótipo do tamanho de um CubeSat, equipado com uma amarra de aproximadamente 420 metros.

Para além da demonstração científica, a PERSEI Space já está focada no desenvolvimento de produtos comerciais. O PEARSON é concebido para integração em novos satélites ou para operações de retirada de objetos já em órbita. Paralelamente, a empresa desenvolve o Green Mobility Module (GMM), um sistema menor para satélites entre 70 e 210 quilos. A lógica é clara: à medida que os operadores de satélites são cada vez mais pressionados a garantir o fim de vida seguro de suas missões, sistemas que eliminam a necessidade de carregar grandes quantidades de combustível para desorbitação oferecem uma vantagem competitiva significativa.

O Papel do Financiamento Público e a Expansão do Mercado

O financiamento público tem sido um pilar para a PERSEI Space. Em 2026, a startup recebeu uma ajuda NEOTEC de 335.000 euros do CDTI para avançar em seu produto comercial. Além disso, lidera o projeto ECO-Tethers, financiado pela ESA com 300.000 euros, em colaboração com gigantes como Thales Alenia Space e Astroscale. Este projeto é particularmente relevante, pois vai além da demonstração tecnológica, explorando aplicações futuras e as necessidades de usuários potenciais. A tecnologia da amarra eletrodinâmica pode ser aplicada não apenas na desorbitação, mas também na propulsão sem combustível para manutenção de órbita, mobilidade de veículos de serviço e remoção ativa de lixo espacial.

O crescimento exponencial do mercado espacial impulsiona essa demanda. Com milhares de satélites lançados e um número crescente de objetos inativos, o risco de colisões e o fenômeno conhecido como Síndrome de Kessler tornam-se cada vez mais iminentes. Para os operadores, demonstrar a capacidade de retirar satélites de forma controlada ao fim de sua vida útil deixará de ser uma opção e se tornará uma necessidade. Para seguradoras e governos, manter as órbitas utilizáveis é uma questão estratégica e de redução de risco econômico. Isso abre um novo e promissor mercado para empresas como a PERSEI Space.

O Futuro da Economia Espacial e a Espanha

A PERSEI Space exemplifica uma tendência mais ampla: a Espanha busca consolidar sua posição na economia espacial global, passando de participante em projetos europeus para desenvolvedora de tecnologia própria. A empresa, incubada no ESA BIC Madrid e com um novo laboratório em Leganés, foi reconhecida como a startup com maior potencial na Comunidade de Madrid. A trajetória da empresa, de pesquisa universitária a um produto comercial com demonstração em órbita prevista para 2027, reflete o amadurecimento do setor.

A indústria espacial está transitando de um foco em "como chegar ao espaço" para "como sair dele de forma segura". A capacidade de retirar satélites ao final de sua vida útil pode se tornar tão crucial quanto a capacidade de lançá-los. Para a PERSEI Space, o teste de 2027 é o primeiro passo. O verdadeiro exame será convencer os operadores a adotar e pagar por sua tecnologia, transformando a missão científica de limpar o espaço em um serviço comercial sustentável.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España