O Peru chega às urnas neste domingo (7) sob um cenário de extrema polarização e incerteza institucional. A disputa presidencial, que opõe a candidata de direita Keiko Fujimori ao esquerdista Roberto Sánchez, reflete um país dividido, com as pesquisas mais recentes do Ipsos indicando um empate técnico dentro da margem de erro, com Sánchez numericamente à frente com 43,8% contra 43,2% de Fujimori.

O clima de tensão é agravado por um contingente significativo de 13% de eleitores indecisos ou propensos ao voto branco e nulo, fator que adiciona uma camada de volatilidade ao resultado final. Segundo reportagem do InfoMoney, o mercado financeiro já sente os efeitos dessa instabilidade, com a bolsa de Lima registrando quedas recentes em resposta à possibilidade de mudanças na condução econômica do país.

O peso da mineração na economia

O setor de mineração, que responde por cerca de 12% do PIB peruano, tornou-se o eixo central do debate eleitoral. A discussão sobre o programa REINFO, que regula a atividade de mineradores informais, expõe o dilema entre a necessidade de formalização econômica e a pressão social exercida pelos 500 mil trabalhadores que dependem dessa cadeia produtiva para a extração de ouro.

Para os investidores, a manutenção das regras do jogo é vital. Embora Roberto Sánchez tenha tentado moderar seu discurso ao prometer a preservação da independência do Banco Central e uma postura pragmática com os Estados Unidos, o receio de rupturas no modelo econômico continua a pautar o comportamento dos ativos financeiros peruanos no curto prazo.

Crise de governabilidade

O próximo presidente peruano herdará um país que, desde 2016, convive com uma rotatividade recorde de lideranças, tendo experimentado oito presidentes em menos de uma década. Esse histórico de impeachments e renúncias transformou a capacidade de governar em um ativo mais escasso do que a própria agenda ideológica dos candidatos.

O vencedor da eleição, que assume o cargo em 28 de julho, enfrentará um Congresso altamente fragmentado. A dificuldade em formar coalizões estáveis sugere que o novo mandatário terá desafios monumentais para implementar qualquer reforma estrutural, independentemente de sua inclinação política.

Implicações regionais e stakeholders

Para os atores regionais e investidores internacionais, o Peru representa um teste de resiliência democrática na América Latina. A fragilidade das instituições peruanas serve como um alerta sobre os riscos de uma democracia que, embora eleitoralmente ativa, sofre com uma paralisia crônica na entrega de resultados públicos eficazes.

O mercado brasileiro, por sua vez, observa o desfecho com cautela, dado o peso das relações comerciais e a interdependência dos fluxos de capital na região. A estabilidade do Peru não é apenas um interesse local, mas um componente da previsibilidade macroeconômica da América do Sul.

O futuro da estabilidade política

O que permanece incerto após o fechamento das urnas é se o resultado será aceito pacificamente pelos derrotados e se a base de apoio no Congresso será suficiente para evitar novos impasses. A capacidade do próximo governo de pacificar as tensões sociais e garantir a segurança jurídica será o principal termômetro para os próximos anos.

Vale observar, nas semanas seguintes, como a transição de poder será conduzida e se o novo presidente conseguirá sinalizar um compromisso real com a moderação institucional, essencial para conter a desconfiança que hoje domina o setor produtivo.

O desfecho desta eleição definirá se o Peru continuará preso em seu ciclo de instabilidade ou se, finalmente, encontrará um caminho para a normalidade democrática e o crescimento sustentável. A resposta virá das urnas, mas a governabilidade dependerá da habilidade política de quem vencer.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney