O apelo do trabalho remoto é inegável. A dispensa do trânsito, o conforto de trabalhar de pijama e a possibilidade de conciliar tarefas domésticas com o expediente parecem um ganho líquido. No entanto, novas pesquisas da Wharton, universidade da Pensilvânia, sugerem que as conversas informais e os relacionamentos construídos no escritório, antes vistos como meras distrações, desempenhavam um papel fundamental na dinâmica de trabalho.

Um estudo conduzido pelos professores Peter Cappelli e Y. Jasmine Wu, da Wharton, e J. Wu, da Universidade do Texas em Austin, entrevistou cerca de 760 funcionários de uma multinacional de serviços financeiros nos EUA, Reino Unido e Índia. A pesquisa, publicada na California Management Review, aponta que o trabalho remoto pode enfraquecer o que os acadêmicos chamam de "capital relacional". Este conceito se refere ao conhecimento sobre quem recorrer para obter ajuda, o conforto em fazer a solicitação e a disposição do colega em responder.

O custo da informalidade

Os pesquisadores observaram que, quando os funcionários relatavam que o trabalho estava sendo feito, geralmente se referiam às suas próprias tarefas e metas individuais (KPIs). Ajudar um colega ou orientar um novo membro da equipe, por outro lado, tornou-se mais fácil de ser negligenciado. Essas atividades, que dependiam mais de relacionamentos pessoais do que de requisitos formais do trabalho, foram enfraquecidas pela distância física. Embora plataformas como o Microsoft Teams facilitem a comunicação, a obtenção de respostas rápidas e eficazes nem sempre é garantida. A pesquisa indicou que funcionários que contatavam colegas conhecidos recebiam ajuda mais rapidamente, enquanto outros enfrentavam atrasos. Para novos contratados, sem laços estabelecidos na empresa, essa dificuldade pode ser ainda maior, levando a um ciclo vicioso onde a relutância em pedir ajuda se intensifica, erodindo ainda mais os relacionamentos.

O impacto nos novos contratados e na colaboração

Um novo contratado, sem amigos no trabalho, relatou ter levado três meses para obter uma resposta crucial. Essa dificuldade em obter suporte imediato pode ser especialmente prejudicial para a integração e o desenvolvimento de novos talentos. Além disso, o estudo sugere que o aumento de reuniões virtuais, muitas vezes com câmeras desligadas e multitarefas, não necessariamente se traduz em maior conexão. Pelo contrário, pode gerar a necessidade de reuniões de acompanhamento para cobrir o conteúdo perdido, aumentando a carga de trabalho e a sensação de transacionalidade do dia a dia, conforme apontado por Cappelli e Ranya Nehmeh em um artigo para a Fortune.

Benefícios e desafios do modelo híbrido

É importante notar que o estudo também identificou aspectos positivos. Alguns entrevistados consideraram a menor interação presencial um benefício para mulheres, minorias e introvertidos, além de reconhecerem que o trabalho remoto pode facilitar a concentração, desde que haja um espaço privado adequado. No entanto, a implementação de modelos híbridos, que poderiam equilibrar a flexibilidade desejada pelos funcionários com a necessidade de contato presencial, mostrou-se desafiadora na empresa estudada. A redução do espaço de escritório para corte de custos e a adoção de mesas compartilhadas dificultaram a regularidade do contato entre colegas, minando os esforços de colaboração.

Perguntas em aberto e o futuro do trabalho

Embora os pesquisadores admitam que as entrevistas por si só não podem provar uma relação causal direta entre o trabalho remoto e o enfraquecimento do capital relacional, eles acreditam que há uma contribuição significativa. Fatores como uma norma de autocuidado incentivada durante a pandemia também podem ter influenciado os resultados. A questão central que permanece é como as empresas podem fomentar a colaboração e o capital relacional em um cenário de trabalho cada vez mais flexível e distribuído. A pesquisa sugere que a simples amizade não é suficiente para garantir a ajuda mútua, e que a colaboração deve ser explicitamente integrada às descrições de cargo e critérios de avaliação de desempenho.

O desafio para a gestão reside em encontrar um equilíbrio que atenda tanto à demanda por flexibilidade dos funcionários quanto à necessidade de trabalho em equipe coeso para o sucesso organizacional. A informalidade do escritório, antes subestimada, emerge como um componente vital da produtividade e da cultura corporativa, algo que o trabalho remoto, em sua forma atual, ainda luta para replicar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune