A crescente dependência das universidades por financiamento externo, especialmente de grandes empresas de tecnologia, tem gerado um fenômeno preocupante na comunidade acadêmica: o chamado 'ethics-washing'. O termo descreve a prática na qual pesquisadores da área de ética e direito são cooptados para participar de projetos com o objetivo de conferir uma aura de credibilidade a desenvolvimentos tecnológicos, sem que suas recomendações críticas tenham qualquer peso real nas decisões finais. Segundo um artigo publicado no portal Daily Nous por um coletivo de acadêmicos, essa dinâmica transforma a ética em uma ferramenta performática, utilizada para contornar exigências regulatórias sem, de fato, endereçar os riscos sociais das inovações.

O problema, conforme apontam os autores Lisa Herzog, Marijn Hoijtink, Gijs van Maanen, Ann-Katrien Oimann e Linnet Taylor, manifesta-se de forma insidiosa. Em casos relatados, nomes de especialistas são incluídos em propostas de financiamento sem consentimento, ou pesquisadores são contratados para conselhos consultivos cujas advertências são sistematicamente ignoradas pelas empresas. Essa instrumentalização não apenas desvaloriza o trabalho científico, mas também compromete a independência das instituições, que passam a atuar como chanceleres de interesses comerciais sob o disfarce de responsabilidade social e conformidade.

A falácia da ética como checklist

Nos últimos dez anos, a governança de tecnologias como a inteligência artificial (IA) tornou-se sinônimo de uma virada ética. Agências de fomento e desenvolvedores de tecnologia passaram a exigir, quase rotineiramente, a inclusão de diretrizes éticas em seus projetos. No entanto, essa exigência frequentemente se traduz na aplicação de checklists, avaliações de impacto simplificadas ou documentos de melhores práticas que, na prática, funcionam como uma formalidade burocrática. A ética deixa de ser um campo de reflexão crítica para se tornar um processo de conformidade operacional.

Essa institucionalização da ética como um exercício de caixa de seleção facilita o que os autores chamam de 'ética reguladora'. Em vez de questionar a viabilidade ou a conveniência de uma tecnologia, o pesquisador é instado a educar a sociedade sobre como lidar com ela. Grandes questões, como a necessidade real de certas tecnologias de vigilância ou o impacto da automação no emprego, são deixadas de lado em favor de debates menores sobre a mitigação de danos marginais, que raramente alteram o curso do desenvolvimento tecnológico.

O mecanismo do financiamento enviesado

O 'ethics-washing' não ocorre no vácuo. Ele se alimenta de uma estrutura de incentivos onde o financiamento privado dita a agenda de pesquisa. Assim como o 'funding bias' é um problema reconhecido nas ciências biomédicas, onde os resultados tendem a alinhar-se aos interesses dos patrocinadores, a tecnologia enfrenta um desafio semelhante. Professores entrevistados sugerem que o recebimento de verbas de big techs pode afetar as perguntas que a academia se sente autorizada a fazer, priorizando a otimização de sistemas em detrimento de uma análise de custo-benefício para a sociedade.

Quando um pesquisador aceita integrar um conselho de ética em um projeto de vigilância, ele corre o risco de legitimar práticas que, por anos, combateu em seus próprios estudos. A performatividade do processo é o que define o 'ethics-washing': o pesquisador é enlistado para provar que a empresa está 'fazendo o bem', mesmo quando as evidências apontam para o oposto. A exclusão de vozes críticas ou o descarte sistemático de recomendações éticas em conselhos consultivos são mecanismos claros de que a ética está sendo usada para desviar a atenção de problemas estruturais.

Tensões institucionais e responsabilidade

As implicações desse cenário são profundas tanto para reguladores quanto para a sociedade civil. Se as universidades falharem em proteger a independência de seus pesquisadores, a confiança pública na ciência será a primeira vítima. O risco é que o papel da academia como centro de pensamento crítico seja substituído pelo de um braço de relações públicas das corporações. Além disso, a fragmentação da responsabilidade torna o problema difícil de combater, já que muitas vezes ele é tratado como uma questão de integridade individual, e não como uma falha sistêmica das instituições.

Para o ecossistema de pesquisa, especialmente em países onde o financiamento público para a ciência fundamental está em declínio, a pressão para buscar recursos privados torna-se quase irresistível. No entanto, a falta de diretrizes institucionais claras sobre o que constitui uma colaboração ética deixa os pesquisadores isolados em dilemas existenciais. A falta de um monitoramento rigoroso por parte das universidades permite que o 'ethics-washing' prospere, pois é financeiramente e reputacionalmente vantajoso para as instituições manter esses fluxos de caixa ativos.

O caminho para uma ação coletiva

O que permanece incerto é se a comunidade acadêmica conseguirá estabelecer limites horizontais eficazes para conter essas práticas. A ideia de que um pesquisador pode, sozinho, decidir abandonar uma colaboração problemática é insuficiente, pois sempre haverá outro profissional disposto a ocupar o lugar. A solução proposta pelos autores é a criação de uma postura coletiva, onde as normas de conduta sejam debatidas abertamente entre pares, criando um cordão sanitário que impeça a exploração da credibilidade acadêmica.

Observar como as instituições de ensino superior vão reagir a esses alertas será o próximo passo. Se os gestores universitários continuarem a priorizar a receita em vez da integridade, a pressão para que os pesquisadores se organizem de forma independente só tende a aumentar. O futuro da ética na tecnologia dependerá menos de novos manuais de conduta e mais da coragem da comunidade acadêmica em questionar de onde vem o dinheiro que sustenta suas pesquisas.

O debate sobre a ética na tecnologia não pode ser terceirizado para consultores contratados por quem desenvolve a ferramenta. A autonomia intelectual, pilar da universidade, exige que as questões sobre o impacto social da inovação sejam feitas sem amarras financeiras. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Daily Nous