O conselho de administração da Petrobras oficializou na última sexta-feira (19) um investimento de US$ 1,2 bilhão, equivalente a cerca de R$ 6 bilhões, voltado à construção de uma nova planta de combustíveis renováveis na refinaria de Cubatão, em São Paulo. A unidade terá capacidade produtiva de 15 mil barris por dia, abrangendo tanto o bioquerosene de aviação (bioQAV) quanto o diesel renovável, com a operação comercial projetada para 2030.

A decisão marca um avanço estratégico dentro do plano de negócios vigente da companhia para o ciclo 2026-2030. Embora o projeto já estivesse no radar da estatal, a execução dependia diretamente da viabilidade financeira e das condições de mercado, que oscilaram significativamente diante das tensões geopolíticas recentes e da volatilidade do preço do barril de petróleo.

Contexto da transição energética

A aposta em Cubatão reflete uma mudança estrutural na forma como a Petrobras planeja seu portfólio de longo prazo. Ao focar em biocombustíveis, a empresa busca mitigar os riscos de descarbonização que pressionam o setor de óleo e gás, alinhando-se a padrões globais de sustentabilidade. A transição para fontes renováveis não é apenas uma escolha corporativa, mas uma resposta à crescente demanda por produtos com menor pegada de carbono, especialmente no setor de aviação internacional.

A escolha da refinaria de Cubatão para abrigar a nova planta é estratégica, dada a infraestrutura logística já existente na região da Baixada Santista. A unidade servirá como um hub de processamento que integra a capacidade de refino tradicional com as novas demandas de biocombustíveis, otimizando o uso dos ativos da companhia durante a transição energética.

Mecanismos de mercado e regulação

O projeto está intrinsecamente ligado ao cumprimento da Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024) e às diretrizes do programa Corsia. Estes marcos regulatórios estabelecem metas rígidas para a redução de emissões no setor aéreo, criando um mercado cativo para o SAF, que se torna um ativo cada vez mais valorizado em escala global. A capacidade de produzir esse combustível em larga escala confere à Petrobras uma vantagem competitiva relevante.

Além da regulação, o incentivo econômico reside na viabilidade técnica de utilizar biomassa processada, como o óleo de soja, que a companhia já começou a testar em lotes comerciais. A integração entre a produção de diesel renovável e o bioQAV permite que a Petrobras equilibre seu mix de produtos, ajustando a oferta conforme a demanda do mercado e a disponibilidade de matéria-prima, mantendo a rentabilidade operacional enquanto atende às metas de sustentabilidade.

Implicações para o setor aéreo

Para as companhias aéreas, a oferta doméstica de SAF é um divisor de águas. Atualmente, a dependência de importações encarece as operações e expõe o setor à volatilidade cambial. A produção local em Cubatão pode, futuramente, reduzir esse custo, facilitando a adesão das empresas brasileiras aos compromissos de neutralidade de carbono impostos por órgãos internacionais.

Para a indústria de biocombustíveis, o movimento da Petrobras sinaliza uma consolidação necessária. O aporte de R$ 6 bilhões valida o potencial do mercado brasileiro e deve atrair investimentos complementares na cadeia de suprimentos de biomassa, desde a produção agrícola até a logística de refino, criando um ecossistema mais robusto e menos dependente de tecnologias externas.

Outlook e incertezas futuras

Apesar da aprovação do conselho, o cronograma até 2030 permanece sujeito a desafios operacionais e macroeconômicos. A execução técnica de uma planta dessa magnitude exige precisão no gerenciamento de contratos e na cadeia de suprimentos, em um cenário onde o custo de capital e a disponibilidade de equipamentos podem sofrer variações.

O mercado observará atentamente a velocidade com que a Petrobras converterá esse investimento inicial em capacidade instalada real. A capacidade da estatal em navegar o equilíbrio entre a rentabilidade do petróleo tradicional e os investimentos em novas energias será o principal indicador do sucesso dessa estratégia no longo prazo.

A viabilidade do projeto em Cubatão estabelece um precedente importante para outros polos de refino no país. Resta saber se o modelo será replicado e como a empresa lidará com a concorrência crescente de players privados que também buscam liderança no mercado de combustíveis renováveis.

Com reportagem de Brazil Valley

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