Uma nova investigação arqueológica estabeleceu um elo inesperado entre as sociedades da Idade do Bronze no noroeste da Península Ibérica e a região sul da Escandinávia. Ao analisar petróglifos localizados na Galiza e no norte de Portugal, pesquisadores liderados por Marta Díaz-Guardamino, da Universidade de Durham, identificaram semelhanças técnicas e iconográficas que desafiam a compreensão sobre o isolamento dessas culturas antigas.
O estudo, publicado na revista Plos One, aponta que as representações de embarcações gravadas na rocha compartilham traços de design que se repetem a milhares de quilômetros de distância. A tese central da equipe é que tais coincidências não são fortuitas, mas evidências de uma conectividade marítima robusta que facilitava o fluxo de ideias, tecnologias e bens materiais durante o segundo milênio antes da era comum.
A precisão dos detalhes técnicos
O que torna a descoberta particularmente relevante é a recorrência de elementos específicos nas gravuras, como decorações em forma de pássaros e traçados em 'S' nas extremidades das embarcações. Além disso, a presença de representações de remos, mastros e velas sugere que a tecnologia naval estava disseminada por toda a costa atlântica europeia. A equipe utilizou escaneamento a laser de alta resolução e fotogrametria tridimensional para garantir a precisão da comparação entre os sítios arqueológicos ibéricos e os milhares de exemplares escandinavos.
Vale notar que a interpretação desses petróglifos como representações de barcos reais, e não apenas símbolos abstratos, reforça a hipótese de que as comunidades da Idade do Bronze possuíam um conhecimento avançado de navegação. A localização dos sítios próximos a rios e ao litoral ibérico, como em Oia e Caminha, corrobora a ideia de que o mar era o principal vetor de integração cultural da época.
O papel do comércio e da mitologia
Além da dimensão técnica, a iconografia compartilhada sugere uma dimensão ritualística e simbólica significativa. Os pesquisadores argumentam que os barcos não eram apenas ferramentas de transporte, mas elementos centrais na cosmologia dessas sociedades, possivelmente vinculados a crenças solares e rituais de passagem. A rede de trocas, que incluía metais estratégicos como cobre e estanho, servia como a espinha dorsal para esse intercâmbio cultural.
Essa dinâmica de conectividade sugere que a Europa atlântica funcionava como um sistema interligado, onde inovações e crenças não ficavam restritas a nichos geográficos. A análise indica que o movimento de bens preciosos incentivou a criação de uma linguagem visual comum, que permitiu que navegadores e artesãos de diferentes regiões reconhecessem símbolos de status e tecnologia uns nos outros.
Implicações para a arqueologia ibérica
Para a arqueologia regional, o estudo oferece uma ferramenta valiosa de datação. Enquanto na Escandinávia o vasto volume de achados permitiu uma cronologia bem estabelecida, a datação dos petróglifos ibéricos sempre apresentou desafios significativos. Ao alinhar as características iconográficas com os padrões nórdicos, os cientistas puderam estimar que as amostras da Galiza e do norte de Portugal pertencem à Idade do Bronze Tardia, entre 1300 e 800 a.C.
Essa sincronia cronológica abre novas frentes de pesquisa sobre como as populações locais adaptaram tecnologias externas às suas necessidades específicas. A capacidade de comparar dados por meio de metodologias digitais padronizadas, como o sistema GIS, permite que pesquisadores brasileiros e internacionais reavaliem coleções antigas sob uma ótica de redes globais, em vez de desenvolvimentos isolados.
Perspectivas de investigação futura
Embora o estudo estabeleça uma base sólida para a existência dessa rede de conexões, a extensão exata dessas rotas marítimas permanece um campo aberto a descobertas. A identificação de novos sítios arqueológicos com técnicas de análise similares poderá revelar se outros pontos da costa atlântica participaram desse intercâmbio de forma tão intensa quanto os locais estudados pela equipe de Durham.
O próximo passo lógico para a arqueologia europeia será investigar se outros elementos da cultura material, além da iconografia em pedra, apresentam correlações semelhantes. A questão de como essas ideias atravessavam o continente e qual era a natureza exata das trocas humanas continuará a ser o foco central das próximas expedições e análises laboratoriais nos próximos anos.
O alcance dessas descobertas sugere que a história da tecnologia e da navegação na Europa é muito mais integrada do que se supunha anteriormente, convidando a uma reinterpretação da mobilidade humana na antiguidade. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





