O mercado financeiro global pode estar olhando para o lado errado na busca por exposição à inteligência artificial. Enquanto o capital se concentra nas chamadas 'Magnificent Seven' do setor de tecnologia, o veterano estrategista de commodities Jeff Currie sugere que a verdadeira oportunidade reside na chamada 'Munificent Seven', um grupo composto pelas sete principais petroleiras do mundo. A tese, detalhada em entrevistas recentes, inverte a lógica do mercado ao colocar ativos tangíveis como a base necessária para a expansão tecnológica.

Segundo o estrategista, que hoje atua como conselheiro do Carlyle e co-executive chairman da Abaxx Markets, o setor de óleo e gás oferece um retorno de free cash flow yield de 15,5%, em contraste com o retorno virtualmente nulo das hyperscalers que sustentam a infraestrutura de IA. Currie argumenta que o mercado ignora o desequilíbrio estrutural entre a oferta e a demanda de energia, um cenário que precede as tensões geopolíticas atuais e que tende a provocar uma inflação persistente.

A vingança da velha economia

A análise de Currie baseia-se no conceito da 'vingança da velha economia', uma rotação de capital que ele observa fluir da tecnologia para ativos físicos. Historicamente, o investimento em capacidade de refino e o capex em upstream de óleo e gás sofreram quedas acentuadas desde 2015, criando um déficit de oferta. O estrategista aponta que, sem o devido investimento em moléculas, a produção de elétrons necessária para alimentar a computação de IA torna-se insustentável.

Para o mercado, a crise no Oriente Médio é frequentemente interpretada como um choque transitório, mas Currie discorda. Ele sustenta que o desequilíbrio é estrutural e que o mercado ainda não precificou a magnitude do choque de oferta que se desenha. Quando os estoques globais atingirem níveis críticos, a escassez forçará uma redução forçada da demanda, o que deve impulsionar os preços de forma não linear.

Dinâmicas de alocação de capital

A alocação de ativos é, por definição, um jogo de soma zero. Atualmente, as empresas de tecnologia representam cerca de 43% do S&P 500, enquanto o setor de energia e materiais detém apenas 6%. Currie projeta que um re-rating para patamares mais neutros, próximos a 25% para tech, implicaria uma rotação de aproximadamente US$ 10 trilhões. Ele acredita que o setor de energia é a única classe de ativos capaz de absorver tal volume de capital após quinze anos de subinvestimento.

O mecanismo de incentivos é claro: o capital busca eficiência e retorno. Enquanto o gasto de capital das hyperscalers com IA cresce, a falta de ativos físicos para sustentar essa demanda cria um gargalo. A tese sugere que a computação de IA é intrinsecamente uma combinação de dados e commodities, tornando as petroleiras — ExxonMobil, Chevron, ConocoPhillips, Shell, Total Energies, BP e Equinor — peças fundamentais no tabuleiro.

Implicações para o mercado

As implicações dessa rotação são vastas para investidores e reguladores. Se a tese de Currie se concretizar, o mercado acionário enfrentará uma pressão vendedora em ativos de crescimento para financiar a entrada em setores cíclicos e intensivos em capital. Para o ecossistema brasileiro, que possui uma forte exposição ao setor de commodities, o movimento reforça a importância das empresas de energia na composição de portfólios globais.

A tensão reside no fato de que os preços de energia, ao subirem, impactam diretamente a inflação ao consumidor e a viabilidade operacional de diversos setores. A dependência de ativos físicos, muitas vezes negligenciada no entusiasmo pela IA, surge agora como o fator determinante para a performance dos ativos na próxima década.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a velocidade dessa rotação de capital. Embora os fundamentos apontem para um superciclo de commodities, o sentimento do mercado ainda é fortemente impulsionado pela inovação tecnológica. A observação constante dos níveis de estoques de petróleo e da evolução do capex no setor energético será o termômetro para validar a tese de Currie nos próximos trimestres.

O mercado acionário continuará a ser testado pela dicotomia entre o valor percebido na inovação digital e o valor real contido na infraestrutura física. A transição para um modelo onde a 'velha economia' dita o ritmo da tecnologia pode ser o movimento mais significativo dos próximos anos, exigindo uma reavaliação das estratégias de alocação de longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech