A recente escalada nos preços do petróleo, impulsionada por conflitos globais e tensões geopolíticas, está aprofundando a já acentuada desigualdade econômica entre países ricos e pobres. Nações em desenvolvimento, que dependem majoritariamente da importação de combustíveis fósseis, sofrem os impactos mais severos dessas flutuações. Enquanto isso, economias mais desenvolvidas, amparadas por sistemas energéticos diversificados, demonstram maior resiliência. A transição para energias renováveis surge como um caminho promissor para fortalecer a estabilidade econômica desses países, mas a falta de recursos e de um planejamento centralizado impede uma mudança sistêmica e equitativa.

A Vulnerabilidade Energética e a Falta de Planejamento

A dependência de combustíveis fósseis expõe países em desenvolvimento a choques econômicos severos. A destruição de refinarias e o fechamento de rotas de navegação, decorrentes de guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, elevaram drasticamente os preços do petróleo. Esse aumento encarece não apenas o combustível em si, mas também bens essenciais como fertilizantes e produtos que dependem de transporte rodoviário e marítimo. Para populações e governos que já lutam para suprir necessidades básicas, o impacto é devastador. Além disso, a alta do petróleo pode desencadear um ciclo vicioso: a desaceleração econômica resultante diminui a arrecadação de impostos, tornando os governos menos atraentes para investidores. Isso força a busca por empréstimos mais arriscados e caros, aprofundando a instabilidade financeira e limitando a capacidade de investimento em serviços públicos essenciais.

Transição Ad Hoc: A Resposta da População e das Empresas

Diante da ausência de um plano de transição energética organizado e financiado, cidadãos e empresas em países de baixa renda estão, por conta própria, buscando alternativas. Exemplos notáveis incluem o aumento expressivo na venda de motocicletas e patinetes elétricos no Vietnã, cujas vendas quase dobraram após o início dos conflitos no Oriente Médio, atingindo 28% das novas vendas de veículos de duas rodas. No Paquistão, a energia solar em telhados viu sua capacidade instalada dobrar em dois anos pré-conflito, ajudando a manter os preços da eletricidade relativamente estáveis após o início da guerra, mitigando choques econômicos. Contudo, essa transição descentralizada e não planejada gera suas próprias complexidades. A migração de consumidores mais abastados para a energia solar privada pode sobrecarregar os custos de manutenção das redes elétricas para os consumidores remanescentes, que geralmente são mais pobres. O crescimento de veículos elétricos (VEs) também pode sobrecarregar as redes sem o devido planejamento e investimento em infraestrutura.

O Papel das Instituições Internacionais e o Financiamento

Instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, historicamente responsáveis por financiar projetos de desenvolvimento em países emergentes, têm sido criticadas por priorizar o pagamento de dívidas em detrimento do bem-estar local. Atualmente, essas organizações parecem relutar em liderar a reestruturação dos sistemas energéticos em nações em desenvolvimento. O Banco Mundial, por exemplo, abandonou metas ambiciosas de financiamento climático, sob pressão de governos como o dos Estados Unidos, que buscam um redirecionamento de foco. Além disso, os principais países financiadores dessas instituições, incluindo EUA, nações europeias e China, têm reduzido o financiamento para desenvolvimento de infraestrutura em países pobres. Promessas de trilhões de dólares para projetos climáticos em nações em desenvolvimento até 2035 ainda carecem de pagamentos anuais significativos e enfrentam um histórico de promessas não cumpridas por parte dos países ricos.

O Futuro Incerto da Transição Energética Global

A crise energética atual, com os preços do petróleo em patamares elevados, tornou inegável a importância macroeconômica da transição para fontes de energia limpa em países em desenvolvimento. O reconhecimento de que a descarbonização é crucial para a estabilidade econômica é um passo encorajador. No entanto, a ausência de um plano global coordenado e de financiamento adequado deixa um futuro incerto para essas nações. A questão central permanece: quem pagará pela transição energética necessária para garantir um desenvolvimento mais resiliente e equitativo em um mundo cada vez mais volátil? A resposta a essa pergunta definirá a capacidade de milhões de pessoas em escapar da vulnerabilidade econômica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Grist