A paisagem dos videogames é um mosaico em constante expansão, onde gêneros se fundem e novas tendências emergem com a velocidade de um raio. Entre os fenômenos mais marcantes da última década, o estilo 'soulslike' se consolidou, inspirando uma legião de desenvolvedores e cativando milhões de jogadores. Essa popularidade, no entanto, também gera um efeito colateral: a categorização apressada. Qualquer RPG de ação com um certo grau de desafio é, quase que instantaneamente, rotulado como 'soulslike'. O aguardado Phantom Blade Zero, da S-Game, é um exemplo recente dessa dinâmica. Seus trailers iniciais, com combates velozes e esteticamente impactantes, levaram muitos a associá-lo imediatamente à linhagem iniciada por Demon's Souls e Dark Souls. Mas será que um jogo é definido apenas por seu combate, ou a essência de um 'soulslike' reside em algo mais profundo?

A Narrativa Fragmentada vs. O Espetáculo Cinematográfico

Uma das marcas registradas dos jogos da FromSoftware, pioneiros do gênero, é a sua abordagem narrativa. A história não é entregue em bandeja de prata, mas sim desvendada em fragmentos, muitas vezes escondida nas descrições de itens e equipamentos. Os diálogos com NPCs são escassos e enigmáticos, e a linearidade é deixada de lado em favor de um mundo que convida à exploração e à interpretação. Essa forma de contar histórias, que exige do jogador uma dedicação ativa para montar o quebra-cabeça, é um pilar fundamental para muitos títulos 'soulslike'. Phantom Blade Zero, contudo, trilha um caminho radicalmente diferente. Ele abraça o espetáculo cinematográfico, com uma profusão de cutscenes vibrantes e diálogos extensos com personagens. A narrativa é apresentada de forma muito mais direta e envolvente, distanciando-se da sutileza e da fragmentação que definem os jogos de Hidetaka Miyazaki. Essa escolha estilística, embora resulte em uma experiência visualmente deslumbrante, afasta o jogo de um dos pilares conceituais do 'soulslike'.

Dificuldade e Punição: A Ausência de Consequências?

A dificuldade é, sem dúvida, o elemento mais associado aos 'soulslikes'. No entanto, a punição pela falha é igualmente crucial. A perda de recursos valiosos, como as almas em Dark Souls, e o respawn implacável dos inimigos após cada morte são elementos que moldam a tensão e a estratégia do gênero. Phantom Blade Zero parece desconstruir essa premissa. A análise sugere que a punição pela morte é mínima, com o jogador não perdendo itens ou progresso significativo. Mais notavelmente, os inimigos não retornam após uma derrota, eliminando a necessidade de revisitar áreas com a cautela e a tensão que caracterizam o gênero. Chefes com múltiplas fases, que em um 'soulslike' tradicional apresentariam um desafio crescente a cada tentativa, aqui são facilitados, permitindo que o jogador retome o combate em fases avançadas. A presença de múltiplos níveis de dificuldade, uma característica rara em títulos 'soulslike' mais puristas, reforça ainda mais o distanciamento de Phantom Blade Zero do arquétipo.

Level Design e Exploração: Um Mundo Aberto, Mas Familiar?

O level design de Dark Souls é frequentemente citado como uma obra-prima, um labirinto interconectado que recompensa a exploração e a descoberta. Essa complexidade arquitetônica, que poucos jogos conseguiram replicar com o mesmo impacto, é outro ponto de comparação. O próprio diretor de Phantom Blade Zero, em declarações anteriores, mencionou que o jogo se assemelharia aos jogos Souls anteriores a Elden Ring em termos de mapa. No entanto, a experiência prática sugere uma realidade distinta. Embora o mundo de Phantom Blade Zero seja visualmente rico e variado, a exploração não carrega o mesmo peso de desafio e descoberta que se espera de um 'soulslike'. A ausência de um level design intrincado e a menor ênfase na navegação complexa indicam que, neste aspecto, o jogo também se desvia da fórmula estabelecida.

A Linha Tênue da Definição

Phantom Blade Zero se apresenta como um jogo de ação ambicioso, com um visual impressionante e um combate que, sem dúvida, cativará muitos jogadores. Contudo, ao despir o jogo de seus elementos visuais e de ação pura, e analisar os pilares que definem o gênero 'soulslike' — narrativa fragmentada, punição significativa pela derrota, respawn de inimigos e level design complexo —, percebe-se um afastamento considerável. A categorização, portanto, torna-se uma questão de nuance. Será que a influência visual e a intensidade do combate são suficientes para carimbar um jogo como 'soulslike', ou a essência do gênero reside em uma combinação específica de desafios e abordagens narrativas que Phantom Blade Zero optou por não seguir? A resposta, talvez, esteja na própria evolução dos gêneros e na forma como os desenvolvedores continuam a reinterpretar e desafiar as convenções estabelecidas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Canaltech