Há objetos que são meramente funcionais e há objetos que se tornam ícones. O espremedor de limão Juicy Salif, criado por Philippe Starck para a Alessi em 1988, pertence à segunda categoria. Com suas pernas longas e corpo aracnídeo, é mais uma escultura provocadora do que um utensílio eficiente, um totem do design que prioriza a conversa sobre a conveniência. Ele representa uma era em que a forma, a surpresa e a assinatura do criador eram a própria substância do desejo de consumo.

É por isso que soa tão paradoxal a principal mensagem de Starck ao ser anunciado como o vencedor do prêmio DesignEuropa pelo conjunto da obra de 2026, uma das maiores honrarias do setor. O mestre dos objetos tangíveis, o homem que deu forma a cadeiras, iates e hotéis, agora usa seu púlpito para pregar o fim da materialidade. A tese central de seu argumento, detalhada em entrevista ao site Designboom, é que o destino final do design industrial é o seu completo desaparecimento.

A desmaterialização como destino

Para Starck, o futuro se baseia na desmaterialização. “Quanto mais o produto desaparece, mais poderoso ele se torna”, afirma. “Acredito que menos materialidade significa mais inteligência e mais humanidade”. Essa filosofia não é um exercício puramente intelectual, mas uma resposta pragmática a um mundo de recursos finitos e mercados saturados. Se no passado sua bandeira era o “design democrático” — usar a produção em massa para baratear e popularizar objetos de qualidade —, hoje ele considera essa batalha vencida. O desafio mudou.

Agora, a missão é implementar uma estratégia de “decrescimento positivo”. A ideia não é parar de produzir, mas reduzir a produção de forma calculada e coletiva, focando em longevidade e responsabilidade ambiental. O critério para introduzir um novo objeto no mundo tornou-se mais rígido: ele precisa oferecer o melhor serviço possível, para o maior número de pessoas, usando o mínimo de recursos. Trata-se de uma mudança de mentalidade, de encher casas para enriquecer vidas com menos, rejeitando os ciclos de tendências que alimentam o descarte.

Narrativa, longevidade e o fantasma da IA

A longevidade, em sua visão, nasce de um equilíbrio entre engenharia, materiais e, crucialmente, narrativa. Um objeto sobrevive ao tempo não apenas por ser bem construído, mas por contar uma história. A cadeira Louis Ghost é um “amigo de todo dia que você pode escolher ver ou esquecer”; o Juicy Salif é um “iniciador de conversas”. Ao projetar, Starck atua como um diretor de cinema, criando cenários que estimulam emoções. É essa camada poética que ancora um produto na cultura e o protege da obsolescência da moda.

Essa defesa da criação original e duradoura ganha contornos de urgência diante da inteligência artificial generativa. Starck expressa uma preocupação genuína de que a IA incentive uma geração de “cinco bilhões de jovens designers” que simplesmente pedirão a uma máquina para criar, abdicando do pensamento. “O segredo do sucesso é estar sozinho e ter sua própria ideia”, aconselha. Neste contexto, instituições como o Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO), que organiza o prêmio, tornam-se vitais para proteger a centelha da criatividade humana contra a replicação instantânea.

Olhando para frente, Starck conclui que a próxima geração de criadores não produzirá mais matéria, mas serviço. “Eles serão nossos coaches, nossos nutricionistas, nossos psiquiatras”. Não é uma escolha, mas uma mutação inevitável na grande história da evolução humana. Para um homem que passou a vida a dar forma ao mundo material, a maior contribuição talvez seja, agora, desenhar os contornos de sua própria obsolescência — e nos convidar a enxergar através do objeto, até que reste apenas a humanidade que ele deveria servir.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Designboom