A seguradora digital Pier anunciou recentemente a integração de seu sistema ao ChatGPT, permitindo que usuários consultem produtos e iniciem processos de cotação diretamente pela interface da plataforma da OpenAI. A iniciativa marca uma tentativa de reduzir a fricção em um mercado historicamente marcado por formulários longos e processos burocráticos, utilizando a IA generativa como um canal direto de relacionamento.

O movimento ocorre em um cenário em que o Brasil se consolidou como um dos mercados mais engajados com ferramentas de IA generativa, com rápida adoção entre consumidores e empresas. Para as seguradoras, a aposta na IA não é apenas uma conveniência tecnológica, mas uma estratégia para transformar o modelo de distribuição de produtos e tornar a experiência do consumidor mais fluida.

Adoção tecnológica no setor

Embora a iniciativa da Pier ganhe destaque pela interface conversacional, ela integra um movimento mais amplo de digitalização no setor de seguros. Dados da consultoria Bain & Company indicam que 78% das seguradoras que operam com seguros patrimoniais e de responsabilidade civil já utilizam IA generativa em algum nível de suas operações. Contudo, a disparidade entre a experimentação e a implementação robusta ainda é significativa.

Apenas 4% das empresas conseguiram, até o momento, escalar a tecnologia de maneira abrangente em seus processos de negócio. A aplicação da IA tem sido diversificada, abrangendo desde o marketing e o atendimento ao cliente até a complexa análise de riscos e a gestão de sinistros. A expectativa é que, com a maturidade das ferramentas, a produtividade operacional possa crescer até 35% em empresas que adotarem transformações estruturais de ponta a ponta.

Mecanismos de personalização

O uso da IA generativa permite que as seguradoras leiam e interpretem perfis de clientes com maior precisão, auxiliando na recomendação de coberturas mais aderentes às necessidades específicas. No Grupo MAG, por exemplo, a estratégia de tecnologia foca em utilizar a inteligência artificial para processar o perfil do cliente e fornecer sugestões otimizadas aos corretores, mantendo o humano como o tomador de decisão final.

Essa abordagem busca equilibrar a eficiência da máquina com a curadoria humana, especialmente em produtos complexos ou destinados a públicos específicos, como pessoas com doenças crônicas. Ao reduzir a carga de perguntas manuais e automatizar a coleta de dados, as seguradoras esperam não apenas reduzir custos operacionais, mas também aumentar a taxa de conversão e a satisfação do cliente, que recebe uma oferta mais personalizada.

Tensões e o futuro da distribuição

As implicações dessa mudança afetam diretamente a relação entre seguradoras, corretores e consumidores. Enquanto a IA promete agilidade, o desafio regulatório e a necessidade de transparência na precificação automática permanecem como pontos de atenção para os órgãos de controle. A transição de projetos-piloto para modelos escaláveis de IA exigirá que as empresas superem barreiras de integração de dados e governança.

Para o consumidor, a percepção inicial dessa transformação deve se manifestar na velocidade do atendimento e na qualidade das interações, antes mesmo de eventuais reduções nos prêmios de seguro. A competição entre as seguradoras, portanto, passa a ser medida pela capacidade de cada player em extrair valor dos dados por meio da IA, sem comprometer a confiança do segurado no momento crítico do sinistro.

Perspectivas de mercado

O setor de seguros observa atentamente se a interface conversacional se tornará o padrão de mercado ou se permanecerá como uma ferramenta complementar. A capacidade das empresas em transformar o interesse inicial do usuário em contratos efetivos será o verdadeiro teste para a viabilidade econômica dessas integrações.

A evolução da IA no mercado brasileiro continuará dependendo da qualidade dos dados e da capacidade das companhias em integrar legados tecnológicos a novas soluções de inteligência artificial. O que se observa agora é apenas o início de uma reconfiguração na forma como o risco é precificado e oferecido ao público final.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney