Foram anunciados os vencedores do Piolets d'Or, o prêmio mais cobiçado do alpinismo mundial. Quatro escaladas, realizadas em 2025, foram selecionadas por um júri internacional como as mais representativas do alpinismo de exploração. As equipes foram reconhecidas por novas rotas abertas no Paquistão (Ultar Sar e Aikache Chokk), no Peru (Yerupajá Grande) e no Nepal (Jannu East). Um quinto prêmio especial foi concedido à francesa Tiphaine Duperier por sua notável descida de esqui no Nanga Parbat.

Mais do que uma lista de vencedores, a seleção do Piolets d'Or é uma declaração de princípios. Em um mundo onde o montanhismo de alta altitude é cada vez mais midiatizado e, por vezes, industrializado, o prêmio funciona como um guardião da ética purista do esporte. A escolha do júri, detalhada em reportagem do ExplorersWeb, não privilegia o cume mais alto ou a façanha mais divulgada, mas sim a forma como a escalada é conduzida: o estilo, o compromisso e o espírito de exploração.

O estilo como substância

O critério central do Piolets d'Or é o "estilo alpino". Diferente do "estilo expedição" — que utiliza cordas fixas, múltiplos acampamentos e carregadores para sitiar uma montanha, como é comum no Everest —, o estilo alpino prega a autossuficiência. A escalada é feita de forma leve e rápida, em uma única investida da base ao cume e de volta, com o mínimo de equipamento e sem deixar rastros. É uma filosofia que exige maior nível técnico, físico e, sobretudo, de comprometimento.

As escaladas premiadas são um manifesto dessa abordagem. No Ultar Sar (7.388m), a equipe abriu uma rota de 3.100 metros em terreno de alta dificuldade, com cinco bivaques na parede. No Yerupajá Grande (6.634m), a equipe espanhola não só abriu uma nova via, mas realizou uma travessia de cume extremamente exposta e sem possibilidade de recuo, batizando a rota de "Essência do Compromisso". Cada uma dessas ascensões representa a antítese da escalada comercial: são jornadas em locais remotos, com alto grau de incerteza e onde a criatividade para solucionar problemas é tão importante quanto a força.

A narrativa da montanha

Os Piolets d'Or também reconhecem a força de uma nova geração. Alpinistas na casa dos 20 e 30 anos, como os britânicos James Price e George Ponsonby, autores da nova rota no Aikache Chokk (6.673m), mostram que o espírito exploratório segue vivo e pulsante. A premiação de Tiphaine Duperier pela descida de esqui do Nanga Parbat (8.125m) também é sintomática: não se trata apenas de subir, mas de interagir com a montanha de formas tecnicamente complexas e elegantes.

É igualmente revelador o que o júri deixou de fora. Conforme a reportagem, notáveis descidas de esqui no Everest, que contaram com grande suporte, e outras ascensões em montanhas de 8.000 metros que não seguiram a ética do estilo alpino puro foram consideradas, mas não premiadas. A decisão é um recado sutil, mas firme, de que para o Piolets d'Or, a narrativa da escalada e a integridade do estilo superam a altitude ou o apelo popular. O prêmio não é uma competição, mas uma curadoria anual das histórias que definem a alma do alpinismo.

Nesse contexto, a homenagem ao austríaco Peter Habeler por sua carreira consolida essa visão. Habeler, um dos pioneiros do estilo alpino nos Himalaias, representa a linhagem histórica que os prêmios deste ano buscam honrar e projetar para o futuro. Em um esporte de extremos, o Piolets d'Or celebra a elegância, a audácia e, acima de tudo, a aventura em seu estado mais puro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ExplorersWeb