O sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, dá um passo significativo em direção à internacionalização. Após uma fase inicial de pré-investigação, o projeto de integração com o TARGET Instant Payment Settlement (TIPS), a infraestrutura de pagamentos instantâneos do Banco Central Europeu (BCE), avançou para a etapa de investigação. Essa progressão, anunciada em uma reunião do TIPS Consultative Group em 20 de outubro, indica que os primeiros estudos técnicos, jurídicos e operacionais não encontraram barreiras intransponíveis, abrindo caminho para análises mais aprofundadas sobre a viabilidade técnica e econômica da interligação.

O avanço na negociação entre o Banco Central do Brasil (BCB) e o BCE representa um marco importante na estratégia de expansão global do Pix. A fase de pré-investigação, concluída em setembro, foi dedicada a mapear potenciais desafios e oportunidades, com a conclusão de que não havia impedimentos críticos. Agora, a etapa de investigação aprofundará esses estudos, buscando determinar com maior precisão os contornos de uma possível conexão entre as duas infraestruturas de pagamento. Embora ainda não haja um prazo definido para a conclusão dessa fase, fontes próximas às negociações indicam um cronograma ambicioso: a expectativa é que a integração técnica operacional ocorra até novembro de 2027, com a realização de um projeto-piloto em junho de 2028.

O que está em jogo na conexão

A eventual interligação entre o Pix e o TIPS visa criar um corredor de pagamentos instantâneos transatlântico. O modelo em discussão prevê que brasileiros possam utilizar suas contas bancárias no Brasil para realizar pagamentos em estabelecimentos na Europa. A operação seria simplificada através do uso de QR Codes: o consumidor escanearia o código em uma loja europeia, autorizaria o pagamento em reais em seu aplicativo bancário no Brasil, e o sistema processaria a conversão cambial, creditando o valor em euros para o estabelecimento. Essa transação, que poderia ocorrer em poucos segundos, eliminaria a necessidade de cartões internacionais ou transferências bancárias tradicionais, oferecendo uma experiência de pagamento mais fluida. O presidente da Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil (ANBCB), Thiago Cavalcanti, ressalta que a transparência nos custos e a competitividade da taxa de câmbio seriam cruciais para o sucesso do serviço.

Além das compras no varejo, a conexão tem o potencial de facilitar remessas internacionais. Recursos poderiam ser disponibilizados na moeda local em questão de segundos, agilizando o fluxo de dinheiro entre os dois continentes. Essa iniciativa se alinha a uma estratégia mais ampla do BCE de conectar o TIPS a outros sistemas de pagamentos instantâneos globais, como os da Índia e Suíça, e à rede internacional Nexus. O Banco Central brasileiro, por sua vez, mobilizou nove áreas internas para definir diretrizes de governança e avaliar a compatibilidade entre as plataformas, considerando também os custos de implementação, a sustentabilidade operacional e os volumes de transação esperados.

O papel do TIPS e os próximos passos

O TARGET Instant Payment Settlement (TIPS) é a espinha dorsal do Eurosistema para pagamentos instantâneos, funcionando de maneira análoga ao Pix no Brasil. Ele permite que instituições financeiras participantes realizem transferências em tempo real, 24 horas por dia, sete dias por semana, com liquidação final e irrevogável em moeda de banco central. Atualmente, o TIPS opera com euros, coroas suecas e coroas dinamarquesas, e já permite operações de conversão entre essas moedas. A possível integração com o Pix, que já possui mais de um bilhão de chaves cadastradas no Brasil, seria um novo capítulo na sua internacionalização. Diferentemente de acordos pontuais entre instituições financeiras, a conexão com o TIPS busca estabelecer uma interligação direta entre as infraestruturas de pagamento dos bancos centrais.

A jornada para a concretização dessa integração ainda envolve diversas etapas. Os estudos em andamento precisam não apenas confirmar a viabilidade técnica, mas também avaliar os impactos no mercado de pagamentos, a demanda esperada e a sustentabilidade do modelo de negócios. A decisão final e as aprovações dos dois bancos centrais serão determinantes para o cronograma. A expectativa é que, se bem-sucedida, essa parceria fortaleça o ecossistema de pagamentos globais e posicione o Pix como um player relevante no cenário internacional, facilitando transações para brasileiros no exterior e, potencialmente, para europeus no Brasil.

Implicações para o mercado e o consumidor

A expansão do Pix para a Europa traria implicações significativas para diversos stakeholders. Para os consumidores, a promessa de pagamentos instantâneos e com conversão cambial automática representa uma conveniência sem precedentes, especialmente para turistas e expatriados. Para os varejistas europeus, abrir a porta para pagamentos em reais via Pix pode significar acesso a um novo segmento de consumidores brasileiros, impulsionando o comércio. Do ponto de vista regulatório, a integração exigirá alinhamento em termos de segurança, conformidade e supervisão, um desafio que os bancos centrais parecem dispostos a enfrentar.

Para o Brasil, a consolidação do Pix como um sistema de pagamentos internacionalmente reconhecido reforça a posição do país como um polo de inovação em serviços financeiros. Contudo, a operação em moeda estrangeira e a conversão cambial também levantam questões sobre a volatilidade das taxas de câmbio e a necessidade de mecanismos de proteção ao consumidor. A colaboração com o BCE demonstra uma visão ambiciosa para o futuro do Pix, que vai além das fronteiras nacionais.

Perguntas em aberto sobre a integração

Embora o avanço nas negociações seja animador, diversas questões permanecem em aberto. A principal delas é a definição dos modelos de negócio e das taxas que serão aplicadas aos usuários, tanto para pagamentos quanto para remessas. A clareza e a competitividade desses custos serão fundamentais para a adoção em larga escala. Além disso, a robustez da segurança cibernética e a capacidade de lidar com volumes de transação significativos precisarão ser rigorosamente testadas.

Outro ponto de atenção é a interoperabilidade com outras infraestruturas e sistemas de pagamento que já operam na Europa. A integração com o TIPS é um passo, mas o ecossistema europeu é complexo e diversificado. O sucesso do Pix na Europa dependerá não apenas da sua capacidade técnica, mas também da sua adaptação às particularidades do mercado local e à aceitação por parte de consumidores e empresas. Observar a evolução dos testes piloto e as decisões regulatórias dos próximos anos será crucial para entender o alcance final dessa ambição.

A jornada do Pix rumo à Europa é um testemunho da capacidade de inovação do sistema financeiro brasileiro. A concretização dessa integração poderá redefinir a forma como brasileiros e europeus interagem financeiramente, abrindo um novo capítulo para os pagamentos instantâneos globais. Acompanhar os próximos passos dessa negociação, que envolve os dois lados do Atlântico, será fundamental para compreender o futuro das transações financeiras internacionais. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Olhar Digital