O Congresso brasileiro avança na discussão do projeto de lei 2780/2024, que busca estabelecer um novo marco regulatório para a exploração de minerais críticos. Sob a relatoria do deputado Arnaldo Jardim, a proposta pretende centralizar decisões estratégicas sobre o setor nas mãos de um conselho vinculado à Presidência da República. A medida, apresentada como uma forma de garantir a soberania nacional sobre recursos essenciais para a transição energética, tem gerado apreensão entre investidores e analistas de mercado, que enxergam na iniciativa um retorno a práticas de intervenção estatal que historicamente restringiram o desenvolvimento industrial do país.

A tese central do projeto é a proteção de ativos estratégicos por meio de um controle rigoroso sobre a exploração, comercialização e possíveis fusões e aquisições envolvendo empresas do setor. No entanto, ao conferir ao Poder Executivo o poder discricionário de vetar contratos e priorizar projetos, o texto cria um ambiente de insegurança jurídica. A experiência brasileira com reservas de mercado em setores como o de informática serve como um lembrete de que o nacionalismo econômico, quando descolado da competitividade global, tende a gerar custos elevados e atraso tecnológico, em vez de autonomia industrial.

O peso do nacionalismo na estratégia econômica

A retórica da soberania nacional tem sido um tema recorrente na formulação de políticas públicas brasileiras desde meados do século 20. O conceito, embora politicamente potente, é frequentemente utilizado para justificar a criação de barreiras que, na prática, isolam a economia doméstica das cadeias globais de valor. No caso dos minerais críticos, a narrativa de proteger recursos estratégicos ignora a complexidade logística e o alto custo de capital necessários para viabilizar a extração e o processamento desses materiais. O Brasil possui um potencial geológico vasto, mas a conversão desse potencial em riqueza exige infraestrutura e tecnologia que, muitas vezes, dependem de parcerias internacionais.

Historicamente, tentativas de estatizar ou controlar rigidamente setores de ponta resultaram em ineficiência e na perda de janelas de oportunidade. Enquanto nações competidoras investem pesadamente na atração de capital e na agilização de licenciamentos, o Brasil corre o risco de se tornar um mercado pouco atrativo. A insistência em um modelo de comando e controle, que ignora a dinâmica de risco e retorno dos investidores privados, tende a perpetuar a posição do país como um exportador de matéria-prima bruta, impedindo a verticalização da produção que o próprio projeto diz querer fomentar.

Mecanismos de controle e o risco da discricionariedade

O cerne da preocupação do mercado reside na criação do chamado Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos. Composto majoritariamente por indicados do governo, este órgão teria a prerrogativa de intervir em decisões corporativas fundamentais, incluindo a análise de acordos de fornecimento, conhecidos como offtakes, e operações de M&A. A ausência de critérios técnicos claros e objetivos para essas aprovações abre espaço para uma discricionariedade que contamina o cálculo de risco de qualquer investidor de longo prazo. Sem previsibilidade, o capital tende a buscar jurisdições onde as regras do jogo são estáveis e menos sujeitas a mudanças de governo.

Além disso, a proposta prevê incentivos fiscais atrelados à transformação local de minerais. Embora a intenção de promover a industrialização seja legítima, a eficácia de tais medidas é limitada se não houver um ecossistema de mineração robusto operando em primeiro lugar. O investidor não se comprometerá com a construção de plantas de beneficiamento complexas se a sua liberdade de operação e comercialização estiver subordinada a avaliações políticas de um conselho cujos critérios podem mudar conforme a conjuntura eleitoral ou a orientação ideológica da gestão de turno.

Tensões entre soberania e mercado global

A disputa em torno da aquisição da Serra Verde por capital estrangeiro ilustra a tensão latente entre a percepção pública de soberania e a realidade do financiamento de projetos de mineração. Investidores de private equity já haviam financiado a exploração de terras raras no Brasil durante décadas, período em que o ativo permaneceu sem interesse por parte do Estado ou de empresas nacionais. A recente contestação judicial sobre o interesse público na transação sinaliza um ambiente hostil que pode desencorajar novos aportes. Para o investidor global, a mensagem é clara: o risco regulatório brasileiro está aumentando em um setor que exige estabilidade para compensar os riscos geológicos e de mercado.

Para os reguladores, o desafio é equilibrar a defesa dos interesses nacionais com a necessidade de atrair o capital necessário para a modernização. No entanto, o Brasil não atua em um vácuo. A corrida global por minerais críticos é intensa, e o capital é fluido. Países que impõem obstáculos excessivos perdem competitividade, e o custo dessa perda é pago pela economia nacional, que deixa de receber investimentos em tecnologia e postos de trabalho qualificados. A soberania real, neste contexto, seria a capacidade de integrar o país nas cadeias globais de suprimento de forma eficiente, e não a criação de um isolamento regulatório.

Incertezas e o futuro da mineração brasileira

O que permanece incerto é como o mercado reagirá caso o projeto seja aprovado sem modificações estruturais que garantam a segurança jurídica. A expectativa é de que o setor de mineração, que possui ciclos de investimento de décadas, adote uma postura de cautela extrema, aguardando a regulamentação dos critérios do conselho para decidir sobre novos aportes. A ausência de clareza sobre o que constitui um risco à segurança econômica ou geopolítica do país é um ponto que exigirá monitoramento constante.

O cenário para os próximos meses sugere que o debate no Congresso será um divisor de águas para a percepção de risco do Brasil no setor de minerais críticos. A questão que fica para os formuladores de políticas é se o país deseja ser um player relevante no cenário global da transição energética ou se prefere manter um controle burocrático sobre um setor que, sem investimentos, corre o risco de permanecer estagnado. O resultado dessa escolha definirá a trajetória econômica da mineração nacional na próxima década.

A discussão sobre o marco legal dos minerais críticos reflete a eterna tensão brasileira entre o desejo de controle estatal e a necessidade de integração econômica. A história sugere que, quando o patriotismo regulatório se sobrepõe à lógica econômica, o resultado costuma ser o oposto do pretendido. A forma como o Congresso conduzirá as próximas etapas do projeto revelará se o país está disposto a aprender com os erros do passado ou se insistirá na fórmula que, historicamente, tem gerado mais soberania no discurso do que prosperidade na prática.

Com reportagem de Brasil Journal Tech

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