A residência de fim de semana localizada em San Andrés de Giles, nos Pampas úmidos da Argentina, surge como uma resposta contemporânea à tradição artesanal da região. Projetada pelo escritório PLUG arquitetura para um casal de artistas, a obra vai além da função habitacional, estabelecendo-se como um campo de experimentação paisagística. A escolha dos materiais e a disposição espacial refletem uma conexão profunda com o território local, onde a produção de tijolos em fornos próximos, como os de Cucullú, a apenas 12 km de distância, pauta a identidade estética do projeto.
A materialidade do tijolo como envelope contínuo
O projeto se destaca pela aplicação de uma estratégia de construção modular que reinterpreta o uso tradicional do tijolo. A envelope externa é executada inteiramente em tijolo vermelho, operando como uma pele contínua e não estrutural que confere desempenho térmico e unidade visual à edificação. Essa abordagem monolítica, que evoca construções fortificadas, contrasta deliberadamente com a leveza dos elementos internos. Ao utilizar técnicas de assentamento sem argamassa aparente na camada externa, o escritório reforça a honestidade material da obra, integrando-a organicamente à paisagem dos Pampas.
O conceito do sólido escavado e seus pátios
Concebida como um sólido escavado, a casa organiza seu programa a partir da subtração de volumes. Três pátios internos foram inseridos na massa retangular original, funcionando como micro-paisagens que permitem o estudo de diferentes espécies vegetais conforme a exposição solar. Essa estratégia de projeto cria um gradiente de permeabilidade visual, onde a casa se fecha para a rua e se abre para o interior, garantindo privacidade e ancoragem espacial. O design transforma a circulação em um exercício de descoberta entre cheios e vazios, onde cada pátio atua como um pulmão para a residência.
Contraste entre exterior e interior
O diálogo entre o exterior robusto e o interior refinado é um dos pontos centrais da análise arquitetônica desta obra. Enquanto a casca de tijolo impõe uma presença sólida e atemporal, as zonas internas escavadas utilizam materiais como chapa metálica e pranchas de madeira, gerando uma leitura espacial distinta. Essa dicotomia material não apenas diferencia as áreas de permanência das zonas de transição, mas também sublinha a intenção dos arquitetos de criar ambientes com diferentes sensações térmicas e táteis, adaptando o conforto às necessidades dos moradores.
Perspectivas sobre a arquitetura rural contemporânea
O projeto da PLUG arquitetura levanta questões relevantes sobre a viabilidade de técnicas vernaculares em projetos de arquitetura contemporânea. A integração entre a prática artística dos proprietários e o desenho do terreno sugere que a arquitetura pode atuar como um mediador entre a natureza e a intervenção humana. Observar como essa residência se comportará ao longo do tempo, especialmente em relação à manutenção da envelope de tijolos em um clima úmido, será um ponto de atenção importante para entender a longevidade de tais soluções construtivas no ecossistema arquitetônico argentino.
A obra exemplifica como a restrição de recursos e a valorização de cadeias produtivas locais podem resultar em soluções de alta complexidade espacial. Ao evitar o uso de ornamentos desnecessários, o projeto convida à reflexão sobre a essência da habitação rural moderna e o papel do design na valorização do entorno imediato.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





