A fina atmosfera de Plutão, milhões de vezes menos densa que a da Terra, começou seu lento processo de colapso. Novas observações, publicadas no Planetary Science Journal, indicam que a pressão atmosférica do planeta-anão caiu 16% desde meados de 2021, um sinal inequívoco de que seu invólucro gasoso está congelando e se depositando como geada em sua superfície.

O fenômeno não é uma surpresa, mas uma confirmação aguardada. A causa é a vasta e excêntrica órbita de 248 anos de Plutão. Desde que atingiu seu ponto mais próximo do Sol (periélio) em 1989, ele vem se afastando, mergulhando em um inverno profundo onde as temperaturas, já na casa de –230°C, caem ainda mais. O que os cientistas observam agora é a consequência direta dessa jornada: o nitrogênio, principal componente de sua atmosfera, condensa sob o frio extremo.

A sombra de um planeta-anão

Confirmar essa mudança a quase 7 bilhões de quilômetros de distância é um feito de precisão astronômica. Sem uma sonda no local desde a passagem da New Horizons em 2015, a equipe liderada por Amanda Sickafoose, do Planetary Science Institute, recorreu a uma técnica clássica: a ocultação estelar. O método consiste em observar a luz de uma estrela distante à medida que Plutão passa à sua frente. A forma como a luz da estrela se apaga gradualmente, refratada pela atmosfera, permite medir sua densidade e pressão.

Analisando dez ocultações entre 2017 e 2023, os pesquisadores mapearam a evolução atmosférica com uma clareza inédita. Os dados mostraram que, ao contrário de algumas estimativas anteriores, a pressão atmosférica se manteve estável entre 2015 e meados de 2021. A queda de 16% ocorreu apenas nos dois anos seguintes, marcando o início definitivo do congelamento. A leitura é que as partículas de névoa na baixa atmosfera estão se assentando, um comportamento esperado com a diminuição da pressão.

Um ciclo de 248 anos

Este colapso não é o fim, mas parte de um ciclo planetário de longa duração. Plutão continuará em sua trajetória de afastamento até atingir seu ponto mais distante do Sol (afélio) em 2114. Até lá, espera-se que a atmosfera continue a se tornar mais rarefeita à medida que mais nitrogênio se transforma em gelo na superfície.

O processo, no entanto, é reversível. Após 2114, Plutão iniciará sua lenta jornada de volta em direção ao centro do Sistema Solar. Com o aumento gradual da insolação, por mais tênue que seja a essa distância, o gelo de nitrogênio começará a sublimar — passando diretamente do estado sólido para o gasoso —, reconstruindo lentamente a atmosfera. Este ciclo oferece aos cientistas um laboratório natural para estudar a dinâmica de atmosferas tênues sob condições extremas.

O que se observa em Plutão é um lembrete da natureza dinâmica e cíclica dos corpos celestes, mesmo nos confins gelados do nosso sistema. A capacidade de medir uma mudança tão sutil em um mundo tão distante demonstra a engenhosidade da observação astronômica e a persistência da busca por entender os processos que moldam outros mundos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com