Na Espanha, a ala mais à esquerda da base governista decidiu cobrar a fatura da inflação. O partido Podemos, por meio de seu porta-voz Pablo Fernández, exigiu publicamente que o governo do presidente Pedro Sánchez abandone o que chamou de “sangrante inação” e adote medidas de choque para conter a alta de preços, que em agosto marcou 4,3% no acumulado anual.

As propostas são um receituário clássico de intervenção direta na economia: um teto para os preços de alimentos da cesta básica, combustíveis e energia, além de um novo imposto de 30% sobre os lucros extraordinários das empresas energéticas. A tese do Podemos é que a inflação está sendo turbinada por margens excessivas, e que tanto supermercados quanto o “oligopólio energético” podem absorver os custos, dados seus “benefícios desorbitados”.

A receita intervencionista

A ofensiva do Podemos reabre um dos debates mais fundamentais da política econômica. A lógica da proposta é simples: se a alta de preços não vem de uma escassez de oferta, mas de uma remarcação oportunista para ampliar margens — a chamada “greedflation” —, a solução seria uma intervenção que force a moderação. Para o partido, é inaceitável que empresas de energia “estejam se forrando” enquanto a população sofre com os custos elevados.

O movimento coloca sobre a mesa uma ferramenta que a cartilha econômica liberal clássica costuma rejeitar. Críticos de medidas como o tabelamento de preços argumentam que elas podem gerar desabastecimento, desincentivar o investimento e criar mercados paralelos, tratando o sintoma em vez da causa. A proposta de um imposto sobre lucros extraordinários, por sua vez, é vista como uma forma de capturar ganhos considerados ilegítimos, mas que também pode afugentar capital no longo prazo.

Para o governo de Pedro Sánchez, a pressão cria um dilema. Ceder às propostas significa adotar uma agenda econômica heterodoxa que pode gerar incerteza nos mercados. Ignorá-las, contudo, alimenta a narrativa de que o governo está protegendo os interesses corporativos em detrimento da “maioria social”. A discussão, embora localizada na Espanha, ecoa um debate global sobre quem deve arcar com o custo dos choques inflacionários: consumidores, empresas ou o Estado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España