A recente análise de Mae Losasso, publicada no n+1, ilumina a tese central de Jennifer Scappettone em sua obra sobre a poética do "barbarismo". Longe de sugerir um retorno ao nonsense ou à glossolalia pura, o livro investiga a potência das disfluências e dos tropeços sintáticos que marcam a linguagem quando ela se encontra em estados de tradução ou desencontro.

O conceito de "barbarismo", aqui, não se refere à ausência de civilização, mas à presença de uma língua que se recusa a ser perfeitamente domesticada. Segundo a leitura da obra, a poesia contemporânea encontra força nas rachaduras da comunicação, onde a sintaxe falha e o vocabulário se sobrepõe, criando uma textura que Scappettone classifica como xenoglóssica.

A estética da falha e a comunicação

A ideia de "pentecostal" aplicada à poesia, conforme Scappettone, remete à capacidade miraculosa de transitar entre idiomas sem a necessidade de uma tradução perfeita. No entanto, essa aspiração não é isenta de ansiedade. A poesia, sob essa ótica, é um exercício constante de habitar o limiar entre o que é inteligível e o que permanece obstinadamente alheio ao leitor.

O "barbarismo" poético funciona, portanto, como uma forma de resistência contra a uniformização da linguagem. Ao abraçar os soluços e as gagueiras da fala, o poeta não busca o erro pelo erro, mas sim a revelação de uma verdade que só pode ser expressa quando a gramática convencional cede sob o peso da experiência humana complexa.

A Babel como aspiração poética

Diferente da ideia de uma linguagem universal imposta, a visão de Scappettone resgata o mito de Babel não como uma maldição, mas como uma promessa. A "wistful aspiration" — ou uma aspiração nostálgica pela comunicabilidade — é o que move a escrita poética que se assume pautada pelo fracasso, mas que, paradoxalmente, gera novos sentidos.

Ao observar como falantes não nativos ou tradutores lidam com as lacunas do idioma, a teoria sugere que a poesia se torna um terreno fértil para o pensamento crítico. É na tensão entre o que se deseja dizer e o que a língua permite articular que o poema ganha sua verdadeira dimensão política e estética.

Tensões na linguagem contemporânea

Para o leitor, o desafio reside em aceitar a incompletude como parte do processo de leitura. Em um mundo que exige clareza imediata e eficiência comunicativa, a poesia que se propõe "bárbara" exige um tempo de maturação diferente, onde a estranheza da sintaxe atua como um convite à reflexão sobre as nossas próprias limitações linguísticas.

As implicações para a literatura e para a tradução são profundas, pois sugerem que a perfeição técnica pode ser, muitas vezes, o maior obstáculo para a criação de algo genuinamente novo. A resistência, neste caso, é a própria recusa em suavizar as arestas do discurso em prol de uma fluidez que, embora atraente, frequentemente esvazia o conteúdo.

O futuro da expressão poética

O que permanece em aberto é como essa "poética do erro" se adaptará em um ecossistema dominado por modelos de linguagem que buscam, por definição, a eliminação da disfluência. Se a máquina tende à correção, a poesia talvez tenha que se tornar cada vez mais "bárbara" para manter sua humanidade.

Observar como a poesia contemporânea navegará essa fronteira entre o dado pela tecnologia e o conquistado pela falha será um dos pontos centrais da crítica literária nos próximos anos. A busca pela comunicação, afinal, parece passar obrigatoriamente pela aceitação da nossa própria incapacidade de dizer tudo.

O debate sobre a linguagem como resistência continua a ser um dos campos mais férteis para entender como a arte responde às pressões da globalização e da tecnologia. A obra de Scappettone, ao validar o tropeço e o hiato, oferece uma lente necessária para quem enxerga no poema não apenas um objeto de contemplação, mas um espaço de disputa sobre o que significa, de fato, compreender o outro.

Com reportagem de 3 Quarks Daily

Source · 3 Quarks Daily