O Parque Arqueológico de Pompeii inaugurou uma nova forma de interação com o passado por meio do aplicativo de realidade aumentada Portyl. A ferramenta permite que visitantes visualizem a cidade como ela era em 79 d.C., tanto em seu estado cotidiano, com gladiadores no anfiteatro e peças teatrais, quanto durante a erupção catastrófica do Monte Vesúvio. A iniciativa busca transformar a experiência de visitação ao integrar tecnologia de ponta à preservação histórica de um dos sítios arqueológicos mais visitados do mundo.

Segundo informações do parque, o projeto utiliza uma combinação de LiDAR, fotogrametria e inteligência artificial generativa para criar reconstruções detalhadas. O trabalho de desenvolvimento foi conduzido pela consultoria History, Incorporated, que escaneou e pesquisou cada local para garantir fidelidade às evidências arqueológicas. O aplicativo já está disponível, com acesso gratuito a áreas selecionadas, enquanto o conteúdo imersivo completo é oferecido por meio de taxas adicionais ou aluguel de tablets dedicados.

A tecnologia a serviço da arqueologia

A aplicação de tecnologias digitais em Pompeii marca uma tentativa de atualizar a forma como o patrimônio cultural é comunicado ao público. O uso de IA generativa, em particular, permite preencher lacunas visuais em ruínas que, embora preservadas, não retêm a totalidade de seus afrescos ou mobílias originais, muitas vezes transferidos para museus como o de Nápoles. A democratização do conhecimento é o pilar central desta estratégia, visando atrair novas gerações e remover barreiras físicas e intelectuais que dificultam a compreensão da vida romana.

O diretor do parque, Gabriel Zuchtriegel, enfatizou que a tecnologia deve servir como uma ponte para o público, mas alertou para o risco de uma "auto-referencialidade" digital. Para o gestor, o perigo reside na produção de conteúdo que prioriza o efeito visual em detrimento do rigor científico. A arqueologia, portanto, deve atuar como diretora do processo, garantindo que a IA não se torne um fim em si mesma, mas um meio de transmissão histórica consciente e precisa.

Desafios da reconstrução imersiva

O desafio técnico envolve equilibrar o entretenimento com a responsabilidade histórica. Ao recriar eventos traumáticos, como a erupção que vitimou cerca de 2.000 pessoas, o desenvolvedor precisa navegar entre o realismo pedagógico e o sensacionalismo. A capacidade de ver o céu escurecer ou os detalhes da arquitetura da Casa do Citarista oferece um nível de imersão inédito, mas também impõe aos arqueólogos a tarefa de supervisionar cada dado processado pelas máquinas.

Este modelo de negócio, que combina acesso gratuito limitado com monetização de recursos premium, reflete uma tendência crescente em instituições culturais globais. Ao oferecer o conteúdo remotamente, o parque expande seu alcance para além das fronteiras geográficas, permitindo que a experiência imersiva seja consumida por historiadores e curiosos em qualquer lugar do mundo. A sustentabilidade financeira da iniciativa dependerá da adesão dos visitantes a esses novos formatos digitais.

Perspectivas para o patrimônio digital

O sucesso do Portyl pode definir um precedente para outros sítios arqueológicos que buscam modernizar sua infraestrutura de visitação. A transição de guias físicos para interfaces de realidade aumentada coloca o Parque de Pompeii na vanguarda da tecnologia aplicada ao turismo histórico. O monitoramento contínuo da aceitação do público e da precisão das reconstruções será essencial para validar o uso de IA em escala.

O futuro da preservação passará, inevitavelmente, pela integração entre o dado físico da escavação e a capacidade de processamento da inteligência artificial. Resta observar como os visitantes reagirão à sobreposição do digital sobre as ruínas reais e se essa camada tecnológica enriquecerá ou distrairá da experiência contemplativa do sítio arqueológico.

O projeto abre precedentes sobre como a tecnologia pode redefinir o papel dos museus e parques arqueológicos, transformando o que antes era uma observação passiva em uma exploração interativa. A evolução dessa tecnologia poderá alterar permanentemente a expectativa do público em relação à educação histórica em ambientes de patrimônio mundial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews