A frustração em relação aos mecanismos de inclusão em Hollywood levou o autor Roshan Sethi a revisitar, no verão de 2024, o clássico de 1848, 'Vanity Fair', de William Makepeace Thackeray. Enquanto o sistema de entretenimento parecia oscilar entre a diversidade performática e a manutenção de privilégios estruturais, a obra de Thackeray ofereceu uma lente satírica sobre a hipocrisia das elites aristocráticas britânicas, que Sethi enxerga como um reflexo direto da indústria cinematográfica atual.
Sethi não buscou conforto em uma narrativa de vitimismo, mas sim na crueza de Becky Sharp, a protagonista hustler do livro que, apesar de seus defeitos, revela as rachaduras de um sistema impiedoso. Segundo relato publicado no Lit Hub, essa identificação com a personagem impulsionou a criação de seu próprio livro, 'The Simp', que busca romper com a expectativa de que minorias devam ser representadas apenas como figuras martirizadas ou inerentemente benevolentes.
A falácia do herói no sistema
O subtítulo original de 'Vanity Fair' é 'Um Romance Sem Herói', uma escolha que ecoa a percepção de Sethi sobre a elite de Hollywood. Em uma estrutura onde o sucesso é frequentemente herdado e não conquistado por mérito, a ausência de um protagonista moralmente puro torna-se uma necessidade narrativa. A obra de Thackeray satiriza a voracidade da aristocracia, um grupo que, tal como as figuras retratadas na capa do livro, desce a escadaria da relevância social revelando suas fragilidades e vícios.
Para o autor, essa falta de heroísmo é o que torna a história tão honesta. Ao evitar a idealização, Thackeray expõe a venalidade das classes altas. Em Hollywood, onde a figura do 'nepo baby' — o filho de celebridade que herda o prestígio — é onipresente, a sátira de 200 anos atrás permanece como uma ferramenta de análise social mais precisa do que muitas produções contemporâneas que tentam, sem sucesso, mascarar a desigualdade sistêmica com discursos corporativos.
O estilo como forma de resistência
Uma das críticas mais contundentes de Sethi reside na forma como a arte contemporânea se tornou 'limpa' e desprovida de ritmo. Ele argumenta que a literatura e o cinema de elite atuais pecam pelo excesso de atmosfera e pela rejeição ao enredo, tratando a construção de uma trama como algo vulgar. Em contrapartida, a escrita de Thackeray é direta, rápida e focada na ação, assemelhando-se aos ganchos de séries de TV antes dos intervalos comerciais.
Essa preferência pela 'baixa arte' — o melodrama, a história bem contada — é o que mantém a relevância de 'Vanity Fair'. Ao adotar esse tom para seu próprio trabalho, Sethi busca despojar a narrativa de sua pretensão, permitindo que os personagens habitem um espaço de complexidade moral. A recusa em descrever minuciosamente cada estado emocional, característica comum na ficção do século XIX, confere à obra uma agilidade que desafia a lentidão calculada da ficção literária moderna.
Implicações para a representatividade
O dilema da representação em Hollywood é, no fundo, uma questão de interioridade. Sethi sugere que, ao exigir que personagens minoritários sejam sempre virtuosos, a indústria acaba por desumanizá-los, privando-os da capacidade de serem contraditórios ou, por vezes, suspeitos. A condescendência embutida na proteção excessiva de certas narrativas é, para o autor, uma forma de veneno que impede a verdadeira equidade.
Essa análise toca em um ponto sensível do mercado: a ideia de que a diversidade deveria justificar a existência de um personagem através de sua bondade intrínseca. Se as minorias não são inerentemente melhores que seus pares brancos, por que a ficção insiste em tratá-las como tal? A resposta, segundo a perspectiva do autor, reside na própria rigidez do sistema, que prefere a caricatura inofensiva à complexidade humana.
O legado da contradição
O fato de Thackeray ter nascido na Índia, em uma família de colonizadores que buscavam fortuna, adiciona uma camada extra de ironia à sua obra. Ele era, ao mesmo tempo, um crítico feroz da aristocracia e alguém que vivia seus excessos. Essa dualidade, que Sethi vê como uma característica de um verdadeiro 'Becky Sharp', é o que permite que o autor compreenda a engrenagem que ele mesmo critica.
O que resta para o leitor e para o espectador é a incerteza sobre como essas dinâmicas de poder evoluirão. Se a arte continuar a evitar o conflito real em favor de uma estética inofensiva, a sátira de Thackeray continuará sendo um guia necessário. A questão não é se Hollywood mudará, mas se a audiência continuará a tolerar a ausência de histórias que espelhem a verdadeira, e muitas vezes feia, complexidade da vida humana.
A relevância de 'Vanity Fair' não reside em sua antiguidade, mas na sua recusa em oferecer respostas fáceis. Ao colocar o espelho diante das elites, Thackeray não apenas satirizou seu tempo, mas forneceu um roteiro para que qualquer geração possa identificar a hipocrisia que permeia as estruturas de poder, independentemente da época.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





