O sol brilha sobre o gramado, centenas de becas formam um mar de cores e o ar carrega aquela mistura inconfundível de alívio e expectativa. No centro do palco, uma figura reconhecida — talvez um acadêmico brilhante, talvez uma celebridade paga a peso de ouro — prepara-se para entregar as palavras que deveriam definir o futuro daquela geração. No entanto, se perguntarmos a qualquer recém-formado na saída do evento o que foi dito, o silêncio é a resposta mais provável. Essa natureza efêmera não é um fracasso da oratória, mas a própria essência do ritual de formatura.

Historicamente, o discurso de formatura atua como um ato de coesão comunitária, um momento de suspensão onde as tensões do mundo exterior deveriam dar lugar à celebração compartilhada. Como aponta a análise de especialistas como David Murray, da Professional Speechwriters Association, a busca por conselhos memoráveis é um erro de perspectiva. O orador, nesse contexto, assemelha-se a um figurante em um wake: sua presença é indispensável para a validade do rito, mas sua performance deve ser, acima de tudo, invisível.

O peso do ritual sobre a oratória

A função social da formatura é ancorar o indivíduo em um coletivo. Quando o orador tenta se destacar com sabedoria cósmica ou polêmicas políticas, ele frequentemente quebra o contrato implícito com a plateia. O verdadeiro sucesso ocorre quando o orador consegue, como definiu o redator Aaron Hoover, priorizar a classe, as famílias e a instituição. O conteúdo, portanto, torna-se secundário diante do sentimento de que, apesar das incertezas, tudo ficará bem.

Vale notar que a tentativa de tornar esses discursos inesquecíveis é um fenômeno moderno, impulsionado pelo desejo das universidades de competir por prestígio. Ao transformar o convite em uma vitrine de celebridades — com cachês que atingem cifras de seis dígitos em casos extremos —, as instituições muitas vezes sacrificam a harmonia do rito. O orador deixa de ser um guia da comunidade para se tornar um ativo de marketing, o que explica por que a política contemporânea tem invadido esses espaços com tanta frequência.

A armadilha da relevância política

Nos últimos anos, o ambiente universitário tornou-se um campo minado de expectativas. O cancelamento de oradores por divergências ideológicas ou a recepção hostil a discursos que tocam em temas sensíveis, como a inteligência artificial ou conflitos geopolíticos, demonstra que a formatura já não consegue se isolar do debate público. O orador que ignora o contexto local corre o risco de ser vaiado, enquanto aquele que tenta ser excessivamente provocativo ignora que o público presente busca validação de sua conquista pessoal, não um sermão.

Um exemplo de sucesso nesse equilíbrio é o discurso de Conan O’Brien em Dartmouth, em 2011. Em vez de focar na própria fama ou em lições grandiosas, ele utilizou referências específicas da cultura local, criando uma conexão imediata com os formandos. Ao demonstrar a humildade de se colocar a serviço do lugar e do momento, ele conseguiu estabelecer a confiança necessária para entregar uma mensagem simples, que não precisava ser antológica para ser eficaz.

Conflitos de interesse e a economia do prestígio

O processo de seleção de oradores tornou-se uma negociação complexa, envolvendo comitês de estudantes, faculty e a administração, que busca agradar doadores ou atrair atenção midiática. Esse cenário, muitas vezes, atropela a necessidade de um discurso que realmente conecte os presentes. A disputa por nomes de peso reflete uma mudança estrutural no ensino superior, onde a marca da universidade precisa ser constantemente reafirmada perante o mercado.

Entretanto, essa busca por figuras icônicas frequentemente resulta em discursos genéricos, pois o orador, muitas vezes, não conhece a realidade específica daqueles alunos. A falta de preparação e o desinteresse em entender o microclima da instituição transformam o que deveria ser um momento de comunhão em um exercício de vaidade. A pergunta que permanece é se o valor simbólico do diploma será, no futuro, acompanhado por discursos cada vez mais distantes da experiência vivida no campus.

O futuro da oratória universitária

Diante de um mundo cada vez mais polarizado, a tentação de usar o púlpito para pregar convicções pessoais é crescente. Contudo, a verdadeira habilidade de um orador de formatura reside na capacidade de transcender o ruído momentâneo e oferecer um breve refúgio de unidade. Talvez o maior desafio para as gerações futuras não seja encontrar oradores melhores, mas aceitar que a importância do dia reside neles próprios, e não nas palavras que lhes são endereçadas.

Se o discurso for esquecido até o jantar de comemoração, talvez o objetivo tenha sido atingido com sucesso. Afinal, a memória da formatura não deveria ser sobre quem falou, mas sobre quem estava lá para ouvir e o que aquele momento representou para a trajetória de cada um. A efemeridade, longe de ser um defeito, é a garantia de que o ritual cumpriu seu papel de passagem.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas