Juan Garcia tinha cerca de seis anos quando seu pai, um rancheiro mexicano-americano estabelecido no sul do Texas, abandonou subitamente seu ofício e mudou a família de nove filhos para Chicago. As razões para o êxodo nunca foram totalmente verbalizadas, mas o episódio marcou o menino. Hoje professor emérito de história na Universidade do Arizona, Garcia dedicou sua carreira a estudar os ventos políticos que forçaram a partida de seu pai e de sua mãe, uma imigrante mexicana sem documentos.
Parte dessa pesquisa e fragmentos de sua história familiar formam o coração de uma nova exposição no California Museum, em Sacramento. Intitulada "Help Wanted / Leave Now" (Precisa-se de Ajudantes / Saiam Agora), a mostra bilíngue, que abre em 13 de agosto de 2026, disseca uma das mais notórias campanhas de deportação da história americana: a "Operation Wetback" de 1954.
A porta giratória
O nome da exposição captura com precisão a hipocrisia estrutural que ela busca documentar. A "Operation Wetback" — termo que usa uma gíria depreciativa para imigrantes que cruzavam o Rio Grande — foi uma ação militarizada do governo Eisenhower para expulsar em massa trabalhadores mexicanos. O paradoxo, no entanto, é que essa mesma mão de obra era, e continua sendo, essencial para a economia agrícola e de serviços do país. A mostra, organizada em colaboração com historiadores como Garcia e a lendária ativista de direitos trabalhistas Dolores Huerta, explora essa dinâmica de "porta giratória": um ciclo de recrutamento seguido por perseguição e expulsão, que se repete em diferentes formas ao longo das décadas.
A campanha de 1954 não foi um evento isolado, mas o clímax de uma política ambivalente. A análise que emerge é a de um sistema que depende economicamente da imigração enquanto a rejeita politicamente. A exposição sugere que essa tensão não é uma falha no sistema, mas uma característica dele, projetada para manter uma força de trabalho vulnerável e sem direitos, que pode ser descartada conforme a conveniência política e econômica.
O resgate dessa memória serve como um espelho para o presente. Ao revisitar as táticas e a retórica de 70 anos atrás, a mostra força uma reflexão sobre os debates contemporâneos sobre fronteiras e imigração nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. A história da família de Garcia, que trocou o campo texano pela vida urbana em Chicago, é um microcosmo de milhões de vidas moldadas por essa porta que, para muitos, só gira em uma direção: para fora.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hyperallergic





