A inflação brasileira enfrenta um horizonte de incertezas para 2026, com economistas revisando suas projeções diante da convergência entre o fenômeno climático El Niño e os desdobramentos de conflitos no Oriente Médio. Segundo reportagem do Money Times, a mediana das expectativas do mercado para o IPCA, que orbitava em torno de 3,91% em fevereiro, avançou para 4,92% em meados de maio, refletindo o temor de uma pressão persistente sobre os preços ao consumidor.

O diagnóstico dos especialistas aponta que os grupos de alimentação no domicílio e serviços, fundamentais na composição do índice, devem atuar como os principais vetores de alta. Enquanto 2025 foi marcado por um alívio pontual nos custos de alimentação, o cenário para o próximo ano sugere uma reversão, com o encarecimento da cadeia produtiva e a instabilidade climática comprometendo a estabilidade dos preços.

O impacto do El Niño na cesta básica

O fenômeno El Niño, previsto para intensificar seus efeitos entre o final deste ano e o início de 2027, é apontado como um fator crítico para a inflação de alimentos. Fábio Romão, economista sênior da 4intelligence, destaca que o impacto será sentido de forma relevante nos produtos in natura, como frutas, legumes e verduras. A previsão de alta para alimentação no domicílio saltou de 3,7% para 6,5% nas estimativas da consultoria, impulsionada também pela elevação nos custos de transporte e fertilizantes decorrentes da instabilidade geopolítica.

Além dos itens perecíveis, o ciclo do boi contribui para uma pressão estrutural, com previsões de alta de 8% nos preços das carnes. Somam-se a isso as expectativas de encarecimento em itens como leite e óleos, consolidando um cenário onde a oferta de alimentos torna-se vulnerável tanto a choques climáticos quanto à logística internacional. A Warren Investimentos estima que o El Niño, isoladamente, adicione 0,16 ponto percentual ao IPCA, com efeitos residuais que podem perdurar até 2027.

A transmissão da inflação para o setor de serviços

O setor de serviços, historicamente mais resiliente, também demonstra sinais de aceleração. A leitura editorial é que o choque de custos na base da economia acaba por contaminar o preço final oferecido ao consumidor. Como aponta Romão, um restaurante, por exemplo, absorve o aumento dos insumos básicos, repassando a inflação dos alimentos para a conta final do serviço prestado, criando um efeito cascata na economia real.

Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, projeta que a inflação de serviços deve chegar a 6,5% em termos anuais. O mecanismo de transmissão é claro: o encarecimento de itens básicos da cadeia produtiva, somado a pressões nos preços administrados — que incluem combustíveis e gás de cozinha —, limita a capacidade de mitigação que a política monetária restritiva teria em um cenário de normalidade. A perda de tração da economia, que poderia conter reajustes, acaba sendo sobrepujada pelos choques de oferta.

Implicações para a política monetária e stakeholders

Para o Banco Central e os agentes de mercado, o desafio reside em calibrar a Selic em um ambiente onde a inflação é pressionada por fatores exógenos de difícil controle. A tensão entre a necessidade de juros restritivos e a realidade de uma economia com famílias endividadas cria um dilema para o comitê de política monetária. Reguladores observam atentamente se o repasse de custos será integral ou se a demanda enfraquecida forçará as empresas a comprimirem margens.

Para o consumidor, a perspectiva é de uma perda persistente de poder de compra, especialmente nos itens essenciais. A conexão com o ecossistema brasileiro é direta, uma vez que a agricultura, base da economia, é a primeira a sofrer com a volatilidade climática, enquanto o setor de serviços, maior empregador do país, enfrenta o desafio de manter preços competitivos frente a uma estrutura de custos inflacionada.

Incertezas no horizonte de 2026

O que permanece incerto é a magnitude final do choque geopolítico no Oriente Médio e a intensidade real do El Niño. Economistas alertam que o balanço de riscos continua enviesado para cima, o que significa que as projeções atuais podem sofrer novas revisões caso o conflito escale ou as condições climáticas se mostrem mais severas do que os modelos atuais indicam.

Os próximos meses exigirão um monitoramento rigoroso dos indicadores de alta frequência. A trajetória da inflação dependerá, em grande medida, da capacidade do sistema produtivo em absorver esses choques sem que a espiral de preços se torne um fenômeno de longa duração, desafiando as metas estabelecidas pela autoridade monetária.

A dinâmica inflacionária brasileira para 2026 apresenta-se, portanto, como um teste de resiliência para a economia, onde variáveis climáticas e geopolíticas se sobrepõem à gestão interna de juros, exigindo cautela de investidores e tomadores de decisão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times