Um projeto de lei foi reintroduzido no Congresso americano em uma tentativa de evitar o colapso iminente do sistema de previdência social do país. Batizado de Social Security 2100 Act, o plano propõe um aumento de 2% nos benefícios para cerca de 71 milhões de americanos e uma mudança temporária no cálculo dos reajustes anuais, para refletir melhor a inflação sentida pelos idosos.

A conta, no entanto, seria paga com um aumento no imposto sobre a folha de pagamento, que passaria a incidir também sobre rendas anuais acima de US$ 400 mil. Segundo uma reportagem da Fast Company, a proposta tem como objetivo principal estender a vida útil do fundo fiduciário do sistema, cuja insolvência é projetada para ocorrer já na próxima década, entre 2032 e 2035. O problema é que, politicamente, a proposta já nasceu morta.

Um esparadrapo para a hemorragia

A matemática por trás da crise é implacável. O fundo que garante as aposentadorias e pensões nos EUA está projetado para se esgotar em menos de uma década, segundo projeções dos próprios administradores do sistema e de modelos como o da Penn Wharton Budget Model. Se nada for feito, os benefícios teriam que ser cortados drasticamente. A proposta em debate busca adiar esse precipício por mais 32 anos.

O cerne do projeto é recalibrar tanto as receitas quanto as despesas. Do lado dos gastos, o ajuste de custo de vida (conhecido pela sigla COLA) passaria a usar um índice de preços focado na cesta de consumo dos idosos (CPI-E), que captura de forma mais precisa os custos crescentes com saúde e moradia. Do lado da arrecadação, a taxação de salários mais altos garantiria o fluxo de caixa necessário para sustentar o sistema por mais tempo.

Manobra política, não solução

O valor real do Social Security 2100 Act, contudo, não está em sua aprovação, mas em seu papel como instrumento de negociação. Com apoio republicano limitado, plataformas como a GovTrack atribuem ao projeto uma chance de 0% de virar lei. Analistas ouvidos pela publicação original descrevem a medida como um “marcador de negociação”, um ponto de partida para um futuro pacote bipartidário.

Elementos específicos da proposta — como o uso de um índice de inflação mais focado nos idosos ou a taxação de rendas mais altas — podem ser isolados e incorporados em um compromisso futuro. A apresentação do projeto força o tema na agenda política de Washington, obrigando ambos os partidos a se posicionarem sobre uma crise que se aproxima rapidamente.

O debate em torno do projeto expõe a disfunção central do sistema político americano: a demografia e a matemática apontam para um colapso inevitável, mas a solução exige um capital político que nenhum dos lados parece disposto a gastar. A proposta, mesmo fadada ao fracasso legislativo, serve como um lembrete de que a conta, uma hora, chegará para todos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company